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A bola

Naquele tempo, entre os meninos, ter uma bola de couro, chamada bola de capotão, era algo raro...

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 28/01/2017 às 20:16Atualizado em 16/12/2022 às 15:28
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Naquele tempo, entre os meninos, ter uma bola de couro, chamada bola de "capotão", era algo raro. Tricampeão mundial o Brasil, a meninada mais e mais se dedicava ao esporte do futebol, inspirada em Pelé e sua equipe. No Natal, a avó presenteou seus dois netos com uma bola de couro para cada um. Um dos meninos logo levou sua bola para a lida. Improvisou com os demais um campinho de futebol e dia e noite ficavam a usufruir da estimada bola. O outro menino, recatado, guardou cuidadosamente o seu especial presente sob a cama. Embora gostasse de participar das brincadeiras com a outra bola, nela, na sua bola, ninguém tocava. A primeira bola estava sendo ralada. Então ela furou uma vez, duas, três vezes. Descosturou um gomo. No entanto, a turma sempre dava um jeito do sapateiro do bairro recuperar a sofrida bola para que servisse à sua finalidade. A alegria e felicidade da criançada. Até que chegou o dia em que o sapateiro disse: - agora não tem mais jeito! Todos muito chateados,  já depois de longo tempo, custaram a lembrar da outra bola, aquela que um irmão colocou debaixo da cama. Então, voltaram-se para o dono desta bola, quase exigindo que a levasse ao uso. Afinal, ele mesmo aproveitou bastante da outra bola. E ele, solenemente, como o salvador, acabou por ceder e foi buscar a bola recolhida sob a cama. Levaram a bola para o sapateiro encher de ar. Mas, quando lá chegaram, qual não foi a surpresa. Para a frustração de todos, o sapateiro tentou encher, sem êxito. E disse que não haveria meio de encher a bexiga porque estava toda estragada, ressecou e danificou-se de modo irrecuperável. A desilusão foi total. Quase esfregaram o pão duro por não ter cedido a bola antes! Contudo, a lição a todos serviu. 

Afinal, convenhamos, o mundo também é uma bola. Portanto, é bem viver a vida ou não. A escolha é de cada um, enquanto há tempo útil e capacidade eficaz. Vegetar para nós é pouco. Certamente, arrepender-se ao final por não se ter vivido pode ser tão frustrante quanto a situação da bola ressecada do menino.

(*) Juiz de Direito

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