O médico e professor Zeferino Vaz, após consolidar em 1953 a implantação do núcleo da USP em Ribeirão Preto, foi convidado para elaborar o plano de implantação da Universidade de Campinas (Unicamp). Em audiência com o então governador do Estado de São Paulo, Jânio Quadros, levou as planilhas de gastos ao mesmo. O governador, após examinar as planilhas, disse: “Magnífico, não ficaria mais barato mandar os nossos jovens estudar na Europa e pagar por isso do que construir uma universidade tão cara?”. Professor Zeferino respondeu: “talvez ficasse mais barato, senhor governador, mas lembro que aquele que detém o conhecimento detém o poder”. Convencido o governador, Professor Zeferino se dirigiu ao Japão, a fim de conhecer a Universidade de Sukuba. Recebido pelo Reitor, disse a ele: “sua universidade é emergente, criada no pós-Guerra Mundial, com densidade científica importante, e vim visitá-la para copiar o modelo. Porém, sobrevoando o campus, observei que as paredes externas não têm reboco e, quando têm, não receberam pintura. Grande parte das construções não têm telhado, mas apenas um toldo que as recobre.
Enfim, porque não melhora estes aspectos com reboco, pintura e telhado?”. O Reitor, então, respondeu: “aqui valorizamos em primeiro lugar o ser humano, ficando por último as construções”. Professor Zeferino retornou ao Brasil e a Unicamp foi construída, elaborando para ela uma sequência hierárquica de seis valores, em ordem decrescente de importância:
1- investir em cérebros; 2- investir em cérebros; 3- investir em cérebros; 4- biblioteca; 5- laboratório; 6- edificações ou construções. Este texto inicial foi a mim passado há muitos anos pelo Professor Édison Reis Lopes, Titular da Disciplina de Patologia Especial da UFTM.
O antigo Hospital da Unicamp, visitado por mim em 1972, assemelhava-se ao prédio da antiga Santa Casa de Uberaba, na Praça do Uberaba Tênis, inclusive com um pé-direito menor. Assim, somente no início da década de 80, ficou pronto o novo Hospital de Clínicas. Quis o destino que, antes de o novo Hospital ser inaugurado, o Professor Zeferino foi lá atendido com quadro abdominal grave. Não havendo equipes e protocolos prontos para atendimento, faleceu, vítima de aneurisma dissecante da aorta, que se rompeu. Este relato final foi a mim feito em 2003 pela Professora Dra. Glória Potero, do Departamento de Anestesiologia da Unicamp, quando esteve na Faculdade de Medicina de Botucatu, Unesp, local da minha pós-graduação “stricto sensu”.
O princípio “quem detém o conhecimento detém o poder” trouxe as seguintes consequências ou conclusões: 1- o Estado de São Paulo sempre quis andar com suas próprias pernas, independente do governo federal, criando três importantes universidades estaduais: USP, Unesp e Unicamp. No Estado havia somente uma federal, a então Escola Paulista de Medicina, criada em 1933 e federalizada em 1960, atual Unifesp. A criação da Universidade Federal de São Carlos ocorreu em 1968.
Por último, o presidente Lula criou a Universidade Federal do ABC, seu berço político. Hoje, São Paulo tem três universidades federais. Porém, Minas Gerais possui 12. Lembro-me que, no tempo das Escolas Agrotécnicas, hoje transformadas em Institutos Federais, haviam 49 no Brasil, sendo 11 delas em Minas Gerais; 2- fica explicado e justificado “o Estado de São Paulo ser a locomotiva que puxa os vagões, sendo estes vagões representados pelos demais Estados brasileiros”, comprovado pelo recolhimento de 720 bilhões de reais em 2021 ao cofre federal e recebido apenas 46 bilhões na forma de repasse; 3- o Estado de São Paulo é a vigésima primeira economia do mundo, com PIB em 2021 de 603,4 bilhões de dólares, enquanto o da Argentina foi de 491,5 bilhões de dólares no mesmo ano.
O PIB do Estado de São Paulo geralmente cresce por ano, em percentuais, mais do que o PIB do Brasil; 4- em 2019, a cidade de São Paulo concentrou 10,3% do PIB do Brasil, representando o terceiro maior orçamento do Brasil, além de arrecadar mais de três bilhões de reais por ano com o “turismo da saúde” (pessoas do mundo todo que se dirigem à capital para receber tratamento). O inscrito em sua Bandeira “non ducor, duco” (não sou conduzida, conduzo) reflete um fato; 5- o Estado de São Paulo atingiu esses padrões devido às ações que concretizaram o conhecimento. Não foi por acaso.
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM
n.roso@me.com