Ela desconfiava de tudo. Recebia um presente, desconfiava das intenções. Dos empregados, desconfiava da dedicação. Negociar era quase impossível, sempre suspeitava que seria ludibriada. Na verdade, tinha horror de ser passada para trás, ser feita de boba, e por isso foi desenvolvendo cada vez mais essa fobia. Houve tempo de desconfiar até se era realmente filha do próprio pai. Ousou casar-se, embora muito receosa de ser traída. Certo dia viu o marido despedir-se de um antigo e íntimo amigo com um carinhoso e demorado abraço seguido da expressã "Não desapareça, meu querido!". Pronto, bastou para que passasse a desconfiar que seu marido tinha um caso com o amigo. Entrou em pânico. Estaria sendo traída nessas condições? Nada tirava da sua cabeça essa dúvida. Passou a monitorar todos os passos do marido, sem nada constatar. Mas, pensava, há ocasiões que ocorrem só entre homens e não posso acompanhar. Não se convencia do contrário pela sua desconfiança doentia. Olhava para o marido pensando que ele tinha de fato um caso e que ainda era com outro homem. A coisa foi ficando tão grave que ela passou a ter asco do marido. Inútil o marido questionar o motivo ou, inocentemente, jurar amor. Ela não o admitia. Vigiava de forma cansativa. Enfim, cortaram os laços íntimos de vez. Passou ano e nada mudou. Ela estava obstinada a provar que sua crença era verdadeira. Não ia assim ser feita de tola, pensava. Mas não podia compartilhar o tema. Então contratou um detetive. Este trouxe fotos em que ele estava saindo com outra mulher em jantares aparentemente românticos. Daí ela desconfiou que o detetive foi subornado pelo marido, que queria salvar suas aparências. Afinal, não trouxe nada de concreto que comprovasse de fato intimidades dele e a outra mulher. Passado pouco tempo, o marido saiu de casa. Disse que ia morar com a mãe. Ela duvidou do destino. Contudo, dias depois, um oficial de Justiça bateu à sua porta com uma citação de divórcio. O divórcio consumou-se, embora ela também desconfiasse das suas intenções, que seriam apenas para que desistisse de buscar sua verdade. Não tardou o ex-marido estava casado com outra. Ela seguiu desconfiada, disso e de tudo mais, dominada por aquela moléstia mental. Permaneceu para sempre tristemente solitária, abrindo mão de tentar ser feliz, mas sem o insuportável receio de ser traída, ainda mais naquelas condições.