ARTICULISTAS

A essência da vida

Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele por meio de seus sistemas simbólicos

Tânia Mara Garcia
Publicado em 09/03/2010 às 21:04Atualizado em 20/12/2022 às 07:42
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Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele por meio de seus sistemas simbólicos. E é exatamente por esse motivo que ela é a única espécie que o pode transformar.

É pelos sistemas simbólicos que os seres humanos pensam, falam, se comunicam e criam as suas leis de comportamento e, portanto, os seus sistemas sociais, políticos e econômicos. Esses sistemas variaram muito nos dois milhões de anos de vida de nossa espécie, principalmente nos últimos 10 mil anos do nosso período histórico. O grande erro dos pensadores foi tomar os sistemas, que foram, socialmente construídos, como biológicos e imutáveis.

Isso aconteceu, por exemplo, com a psicologia do fim do século XIX e início do XX, cujas afirmações vão da certeza de que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem a capacidade de simbolizar como o homem à alegação de que se o simbólico é masculino, "a mulher não existe". Não existe porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio pertence à mulher. Segundo essa premissa, o simbólico é estruturado pela cadeia de significantes na qual o grande organizador é o fal metáfora do órgão sexual masculino e do poder. O poder – que é essencialmente masculino – é o "grande outro"a quem, implícita ou explicitamente, todos os atos simbólicos humanos se referem.

Na última metade do século XX, no entanto, algo novo aconteceu. Ao ingressar no mercado de trabalho, as mulheres abriram a porta dos sistemas simbólicos masculinos no momento em que esses se mostram implacavelmente destrutivos em relação à vida. A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres têm hoje é a de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o falo (o poder, o matar ou morrer, que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos. Uma nova ordem estruturada sobre a vida.

As mulheres estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos. E não só nas instituições convencionais, como empresas e partidos políticos, mas também em outras, muitas vezes na contramão da história como nas lutas populares, onde são a grande maioria. Elas estão construindo uma nova ordem simbólica, na qual o "grande outro" é a vida – viver e deixar viver –, e ajudando a desconstruir a atual ordem universal de poder.

São as mulheres que vêm lutando sem trégua para transformar de forma profunda e definitiva as estruturas econômicas excludentes e opressoras. E as sociedades lhes deverão para sempre o esforço que busca substituir a função estruturante do falo pela função estruturante da vida. Nas mãos das mulheres repousam a sobrevivência da comunidade dos homens e a exaltação do humano.

Sua vitória será a grande vitória da humanidade: a perpetuação das relações alicerçadas sob a égide da dignidade, a bússola da ética e a essência da vida.

(*) professora

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