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A tragédia e o jeitinho brasileiro

Toda vez que ocorre alguma tragédia no Brasil

José Carlos Fernandes Junior
Publicado em 22/02/2013 às 21:47Atualizado em 19/12/2022 às 14:35
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Toda vez que ocorre alguma tragédia no Brasil, logo somos tentados a elegermos um único culpad o Poder Público. E a razão é muito simples, devido à nossa precária noção de "coisa pública", acabamos imaginando que ninguém melhor para pagar o prejuízo sofrido do que o erário público, afinal ele não é de ninguém. Esquecemos, entretanto, de que essa falsa conclusão é mais das armadilhas da enfadonha máxima "privatiza-se os lucros e publiciza-se os prejuízos". É chegada a hora de admitirmos que o famigerado "jeitinho brasileiro" não é fomentado unicamente pela corrupção, esta é apenas uma das fontes desta maldição que assombra nossa cultura. Há outras duas: a incompetência e o desleixo. Isso mesmo, é possível que, não bastassem os corruptos, homens públicos desonestos, e corruptores, homens desonestos da vida privada (pode tirar a palavra vida que não mudará o conceito), haja ainda os incompetentes e os desleixados. Os primeiros, estejam na vida pública ou privada, devido à sua absoluta falta de aptidão em relação à atividade a que se dispõem a exercer, também são fontes abismais do maldito “jeitinho brasileiro”. Quem nunca ouviu falar dos famosos “quebra-galhos”, “gambiarras”, nas mais variadas atividades? Pois é, estas “gambiarras”, muitas vezes verdadeiras armadilhas, sendo mais direto, espetaculosas burrices, já provocaram inúmeras tragédias em nosso país. E não para por aí, temos ainda os desleixados, também conhecidos como preguiçosos. Esteja ele na vida pública ou privada, mesmo sendo um bom companheiro para se tomar cerveja e incapaz de falar mal de quem quer que seja, é dotado de uma falta de vontade de trabalhar que dá medo. Quem não conhece um preguiçoso, seja no serviço público ou privado? Pois é, este ser aparentemente inofensivo também já propiciou inúmeras tragédias, devido ao seu desleixo, à sua preguiça em cumprir com suas obrigações. Como se vê, não é apenas no Poder Público que se fomenta o “jeitinho brasileiro”, ou melhor, a relutância em se admitir a obrigação de se sujeitar às regras, às normas. É imperioso que nos afastemos da visão hipócrita e irreal de que os homens da vida pública brasileira seriam seres alienígenas, fisgados em um aquário de uma galáxia longínqua. Errado, absolutamente errado, eles são um de nós, ou melhor, a parte de um todo chamado sociedade brasileira. Paremos então para refletir: A quem devemos obediência, às normas ou ao “jeitinho brasileiro”? Devemos nos envergonhar sempre que descumprimos uma norma ou esse descumprimento somente deve ser motivo de vergonha quando ele leva a uma tragédia? É motivo de vergonha dirigir um veículo automotor após ingerir bebida alcoólica ou isso só deve ser assim interpretado quando atropelamos e matamos um pai de família? Ora, sabemos muito bem que é absolutamente impossível manter-se uma vigilância perfeita, presente em todos os eventos da sociedade. Não faz muito tempo, a imprensa televisiva mostrou um caminhão, carregado de pneus, tombado em uma rodovia. Naturalmente, como em qualquer parte do mundo, era aceitável não haver um posto policial no local, demandando, portanto, um certo tempo para que a Polícia se fizesse presente. Nos primeiros minutos, viu-se alguns poucos homens, mal vestidos, apoderando-se de alguns dos pneus. Não tardou e vieram outros, agora não apenas mal vestidos, mas também alguns que conduziam Hilux, Pajero, entre outros veículos caríssimos, que não titubearam em afanar um pneuzinho. Em completo engano encontra-se aquele que imagina conter o malfeito apenas com a força estatal. Você quer que o famigerado “jeitinho brasileiro”, que tantas tragédias já proporcionou em nosso pais, tenha um fim? Pois então não apenas exija o cumprimento das normas pelos outros, policie-se você também quanto ao cumprimento destas. Lembre-se: qualquer mudança no comportamento da sociedade passa necessariamente pela mudança do comportamento de cada um de nós.

(*) Promotor de Justiça de Uberaba; coordenador regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Público do Triângulo Mineiro – Polo Uberaba, e professor universitário

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