Por mais paradoxal, contraditório ou adverso que possa parecer, mentira para ser mentira tem que ser verdadeira. Mas como? Mentira verdadeira? Sim. Sendo a mentira criação abstrata de fato irreal, tem ela que ser para o seu fim malvado. Caso contrário, não é mentira propriamente.
O filho foi com a mãe, portadora de grave enfermidade, à médica. Queria a mãe provar-lhe que estava bem, à beira da cura, caso ela cumprisse os procedimentos prescritos pela doutora. Foram e, diante da médica, esta confirmou o que dissera a mãe ao filho. Que ela estava mesmo bem e em franca evolução a sua recuperação. Bastava que cumprisse com método suas prescrições: caminhar, descansar, alimentar-se bem, tomar sistematicamente os medicamentos e buscar a alegria... E acrescentou a médica, dirigindo-se ao filho, que, enquanto a mãe fosse à sessão de quimioterapia, ele esperasse para que ela lhe explicasse melhor os procedimentos. E assim aconteceu. Na ausência da mãe, disse a médica ao filho que sua mãe estava prolongando a sobrevida pelo otimismo, pela crença na recuperação, mas esta enfermidade, pela literatura, já apontava para o final da sua vida.
Pergunt Mentiu a médica para a mãe? Respond Verdadeiramente não mentiu. Mentira é para o mal, para o conflito, para a discórdia, para a destruição. Por isso que afirmo que mentira para ser mentira tem que ser de verdade. Eis porque a verdade é sempre superior. Eis porque o demônio só existe por permissão do divino, para que se revele se o ser é realmente mal ou não. A escuridão só existe porque existe a luz.
Atente-se para não mentir de verdade, mas penso, eventualmente, que a omissão mentirosa, que mentira de verdade não é, pode ser manejada para o bem, para a construção, como as lendas são usadas para a boa educação.
Ofende muito simplesmente sentenciar alguém de mentiroso sem medir suas reais intenções. Mas melhor mesmo é evitar a mentira, seja qual for.
Cuidemos para isso.
(*) Juiz de Direito