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Ainda há tempo, quase sempre há

Chorava copiosamente o homem à beira da caixa fúnebre, onde jazia inerte o corpo frágil...

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 03/12/2016 às 18:58Atualizado em 16/12/2022 às 16:20
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Chorava copiosamente o homem à beira da caixa fúnebre, onde jazia inerte o corpo frágil de uma idosa mulher que guardava na face a imagem da paz. Casada há pouco, fora apontada como de “ventre seco”. Recebera em adoção aquele que agora estava aos prantos. Devotou a ele todo o carinho e dedicação na sua delicadeza. Ele gostava dessa dedicação. Ele sabia ser adotado. Na adolescência, contudo, começou a rejeitar a mãe adotiva. Questionava o motivo que a mãe natural o dera em adoção. Mas soube que isso só ocorreu porque, mãe solteira, àquele tempo, quase foi coagida a ceder o filho ao irmão rico, cuja mulher não dava à luz. A mãe adotiva o amava de fato. Ao mesmo tempo que se realizava por seu instinto materno, aplacava a frustração pelo impedimento biológico. Ele, embora soubesse do amor, guardava por dentro sua gratidão e mantinha-se formal. Ela ficou viúva. Ele a destinava a atenção regular. Ela se consolava pensando que ele crescera e que esse seria seu jeito de homem. Bordava presentes com suas iniciais, fazia seus doces prediletos. Tinha devoção pela maternidade. Na véspera, ele fora instado a atender um chamado dela, sua mãe, embora, depois de crescido, a tratasse pelo nome. Estava a tomar cerveja e mandou avisar que iria pela manhã seguinte. Ao amanhecer, a acompanhante dela telefonou novamente. Respondeu ele, algo nervoso, que já dissera que iria. De fato, sempre ia. Mas a acompanhante esclareceu que agora ligava para avisar da morte dela. Morreu “de repente”. Sentiu ele o mundo desabar sobre si. Como assim, sem aviso? Sentiu-se ingrato, pois não teve tempo de dizer a ela do seu amor ocultado. Nem sabia o motivo que fizera seu amor secreto. Então, chorava aos berros, quando o Padre chegou, sabedor da história. Disse-lhe o Padre: – Filho, solte seu amor; Maria, Mãe Santíssima, também é mãe de todos, sem elo de sangue, só por adoção, tal qual José de Jesus foi pai. O amor é mais que sangue. Aprenda. Assuma seu sentir. Ainda há tempo, quase sempre há.

(*) Juiz de Direito

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