Todo ser humano que tenha função pública necessita estar “antenado” com os sentimentos populares, pois, se assim não agir, estará em situação de ridículo, cuja definição é “condição em que a maioria percebe o que está acontecendo, mas apenas o envolvido não vê”. Vejamos.
LUÍS XVI era o Rei da França e este país estava em situação de grave crise social, pois:
1- a França apoiara as batalhas dos americanos para libertá-los dos ingleses. Para isso, enviou tropas e grande auxílio financeiro aos americanos;
2- na sequência, houve uma grande seca na França, que não produziu alimentos e não teve o dinheiro para importá-los;
3- o Rei Luís XVI, desligado dos sentimentos populares, “não antenado com os mesmos”, convocou os Estados-Gerais, órgão que não se reunia havia mais de 150 anos, para pedir um aumento dos impostos. A única atitude que o Rei não deveria tomar aconteceu, pois, acostumado ao poder, cometeu o “abuso de poder”, esquecendo-se que “não adianta bater em cavalo cansado”. Neste momento, o estopim foi aceso. Conclusã o cidadão sem alimentos se torna agressivo, mas quando sua família fica sem alimentos ele se torna um guerreiro, um revolucionário. Houve a queda da Bastilha, assalto popular à antiga prisão símbolo da opressão do Antigo Regime francês. Assim surgiu a Revolução Francesa e consequente morte do Rei e da Rainha Maria Antonieta, que foram guilhotinados.
Alexandre de Moraes tem se tornado impopular devido às suas frequentes ações sem base legal, com abuso de poder e consequentes inseguranças jurídica e política:
1- isto motivou vários pedidos de impeachment, engavetados pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco;
2- como sempre foi um frequentador do Clube Pinheiros, na capital paulista, houve uma proposição de homenageá-lo, mas foi rejeitada pelo Conselho do clube;
3- semanas atrás, recebeu uma homenagem do Conselho do Ministério Público do Estado de São Paulo, mas a aprovação foi apertada: seis votos favoráveis contra cinco contrários, ou seja, houve significativa rejeição ao seu nome. A bola bateu na trave e entrou. Como se vê, há muitos sinais e sintomas de rejeição popular ao ministro Alexandre, o que evidencia que “o aviso foi dado”.
Um fato opost Juscelino Kubitscheck, quando presidente do Brasil, ao despachar em seu gabinete, pedia às senhoras que serviam café na antessala às pessoas que aguardavam ser ainda atendidas por ele, “para prestarem bastante atenção às conversas destas pessoas, pois não querem que o Presidente tenha ainda mais problemas”. Certa vez, Juscelino foi encontrado em reunião com as cozinheiras. Enfim, ele tinha uma rede oficiosa de informações e não cortou o cordão umbilical que o manteve sempre em contato com o sentimento popular.
Pelo exposto acima, Alexandre e Luís XVI se parecem, pois, gostando do exercício do poder, não se “antenaram” e não se conscientizaram dos sentimentos do povo. A punição para Luís XVI foi a morte e para Alexandre, se os mecanismos democráticos funcionarem, será o impeachment. Certamente, as ações de ambos os colocam na condição do ridículo, em situação oposta à de Juscelino Kubitscheck.
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM
n.roso@me.com