Frágil, a imagem da lua ainda se reflete nas brumas frias sobre o lago
Frágil, a imagem da lua ainda se reflete nas brumas frias sobre o lago. Vem calmamente surgindo, como em todo dia, o astro rei. Lança sobre o mundo, que vira para ele sua vértice, seus primeiros raios luminosos que levam a claridade, o calor e o anúncio de um novo dia! Uma energia vital.
Ainda há o frescor da madrugada e a relva tem em si a umidade do sereno que suavemente caiu por toda a noite. Belas as árvores. As flores compõem o ambiente. Corre serena a água no riacho.
A brisa bate numa brandura inexplicável, somente compreensível para quem esteja a saborear a beleza e a delícia de uma alvorada de primavera.
Logo surgem os primeiros cantos dos galos, depois o estalar dos pássaros, a candura do canto do Sabiá destacando-se quando há uma trégua dos sons alegres de todas as outras aves que fazem o maravilhoso compor de mais um amanhecer, dádiva
divina, segura, imutável, sequencial.
Na água, as garças movimentam-se. Os patos, gansos, marrecos e seus afins começam a riscar estas águas num movimento delicado e livre, para também soltar o corpo a comemorar o amanhecer.
Aliás, todos se espreguiçam, antes de começar a se mover.
O cão ladra feliz, o gato manhoso mira o rato de olhos atentos, observando o milho do rico paiol.
A vaca amamenta carinhosamente a cria, como de regra todos os mamíferos com filhotes.
Uma harmonia que em nada lembra a cadeia alimentar.
Eis que de fato amanhece, abrindo-se as portas da casa próxima. Sai o homem.
Então é o fim da alvorada.
O cão subtrai um ovo do ninho da galinha, tal como o gato persegue o rato, que corre para furtar o paiol. Depois de ciscar o chão, a galinha toma para si a minhoca que é disputada por outra. A garça, com muita elegância, toma para si um peixe que estava distraído, recebendo o calor do sol mais por cima da água. O pavão corteja a perua e seu par não gosta, enquanto o tucano furta no ninho do passarinho o seu alimento do dia... A guerra começa, pela sobrevivência. Afinal, o maestro, o mestre e predador, o homem, já se levantou. Na luta dos animais, há o limite da necessidade. Na disputa dos homens, limites não há. Sorte é que existe uma alma materna sugerindo a ética, a tolerância e o amor. Mas que, no momento, anda ainda adormecida.
E salve-se quem puder.