Filosofia do amor, filosofia do governo, filosofia do adolescente, filosofia da paz...
Filosofia do amor, filosofia do governo, filosofia do adolescente, filosofia da paz (ou da guerra), filosofia da TV, filosofia disso e daquilo! Até parece que vivemos (todos) cercados de filosofias. Filosofia de botecos, filosofia de pobres (ou ricos), filosofia de negros (ou brancos)... e por aí vai-se filosofando...
“Amar (philia) a sabedoria (sophia)” – a procura amorosa da verdade. Ah... já ouvi dizer que até o sexo tem a sua filosofia e também as cadeias públicas e penitenciárias! Em alguns grupos de amigos sempre há aquele que se julga o mestre, o guru, o filósofo da turma, um poço de prudência e sabedoria. É ele o filósofo, o nosso amigo sempre atento e disposto a mudar o rumo de uma prosa do popular para a esfera do abstrato, do difícil e do árido. “Bacana” foi um antigo colega de escola, da época que grande parte da juventude amava os Beatles e os Rolling Stones e começava a descobrir Deep Purple e Alice Cooper. Estudávamos na mesma classe de um tradicional colégio marista em BH.
Geraldo “Maritaca” era o seu primeiro-tenente, porém mais conhecido por ser o seu puxa-saco-mor. E era do Maritaca que sempre ouvíamos a mesma frase, todos os dias: “A grande maioria dos alunos da nossa sala e outros tantos que também estudam neste colégio sofrem de profunda desordem intelectual”. Desnecessário dizer, mas era grande o número de colegas que não davam ouvidos à maioria da ala filosófica dos alunos maristas e às suas satíricas considerações. Certo dia o recatado “Bacana” teve uma breve discussão com o sisudo Irmão Braz, professor de Moral e Cívica, a respeito do ensino de filosofia de São Tomás de Aquino. Vejam só onde foi se meter o jovem colega! Ele queria persuadir aquele religioso a respeito das suas convicções sobre
Positivismo e Cientificismo. Bacana abusou. Bacana ganhou três dias de “balão” com direito a um “sabão”, que lhe foi passado na cara pelo Irmão Freitas, monitor-disciplinar. Poucos dias após aquele entrevero, “Bacana” voltava à cena ao dissertar para um grupo de vendedores ambulantes, à porta do Colégio, sobre a obra filosófica do Cardeal Desidério Mercier, ninguém menos que o fundador do Instituto Superior de Filosofia de Lovaina (Bélgica). Sorveteiros, pipoqueiros e doceiros em geral especializavam-se, aos poucos, em Kant, Voltaire, Aristóteles e Descartes. Inútil a qualquer mortal era querer afastar o
“Bacana” das suas dissertações filosóficas. Mulheres, futebol e rock nem pensar, ou melhor: nem filosofar com ele a esse respeito alguém se atreveria. E essas lembranças vieram-me à mente após uma das minhas filhas, adolescente, perguntar-me quais os ofícios de um filósofo. Alguém havia dito a ela que cursaria “Filosofia” em uma determinada faculdade. Travei, confesso. Porém, passados alguns instantes, veio em meu socorro a imagem do colega “Bacana” e também do muito pouco que sei sobre o quase nada que eu já havia irrisoriamente lido sobre filosofia e o que, agregado aos meus parcos conhecimentos a respeito, acredito ter sido mais que o suficiente para satisfazer a curiosidade daquela minha filha: “Filosofia é o que mostra aos homens a posição exata de cada valor e que o ajuda a dirigir a sua vida, de modo a colocá-lo na via certa em demanda do bem infinito. Uma fonte de sabedoria e de estruturação humana, uma busca de fundamentos, uma forma de sugerir-se soluções inteligentes ante a visão saturada e tecnicista da atual geração de homens” . Até eu assustei-me com a qualidade da minha resposta. Teria sido uma inspiração “bacanina”? Ou um sopro “maritaquiano”? Em seguida consultei o “Google”. Não fiquei longe de uma resposta ao menos próxima do ideal. Ufa! Agora ela quer, porque quer, aprender o Latim. Adolescência... quanta saudade!
Gustavo Hoffay
Agente social