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Aparências

Disse Balzac, elegância é parecer o que se é. Na vida em sociedade certamente

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 08/08/2015 às 20:41Atualizado em 16/12/2022 às 22:55
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Disse Balzac, "elegância é parecer o que se é".

Na vida em sociedade certamente que as aparências contam muito. Afinal, reiteradas vezes temos que lidar com pessoas que nunca antes vimos, de quem nada sabemos. Então, busca-se decifrar pelas aparências as tendências mais imediatas que constroem a relação, seja ela para que fim for. Profissional ou pessoal.

Verdade que não se pode fiar nas aparências por demais. Há aquelas pessoas superinteressantes apenas "na primeira meia hora" do conhecimento. Mostram-se extremamente agradáveis, inteligentes, gentis, exibindo aí uma capacidade incrível de ser. Os estelionatários sempre são assim. Até que conquistam a confiança do interlocutor e aplicam o golpe patrimonial, sob o ponto de vista criminal. Mas há aqueles que usam do mesmo método para atrair e cativar pessoas para a intimidade. Detectam uma carência afetiva e a exploram, ou têm em si uma carência profunda que leva buscar uma companhia a qualquer custo. Depois tomam posse do convívio, bloqueando a liberdade alheia de desfazer a relação.

Mesmo as pessoas que parecem não se preocupar com a aparência, corporificam uma aparência, ainda que despojada, indiferente, distante que, no contexto, compõe sua aparência.

Há aquele que é apenas verniz, por fora bem vestido, apresentável, por dentro a incompetência e a maldade.

No entanto, o que a pessoa pensa de si própria e de sua aparência é exercício subjetivo, pessoal, íntimo.

Certamente que temos que ter cuidado. Afinal, as aparências impressionam. Geralmente o que se mostra é para tentar esconder aquilo cuja antipatia de si mesmo tenta guardar a sete chaves.

O que mais intriga na questão das aparências é a situação daqueles que vivem por conta dela. Que vivem e são capazes de morrer por conta delas. Que se enterram em vida em face delas, escravos eternos do "o que vão pensar de mim". Não pelo fato de pensarem a verdade sobre si, mas pela aflição de parecer que não sejam tão admiráveis como gostariam de parecer, sendo ou não sendo a verdade.

O sofrimento é demais. Parecer belo. Parecer novo. Parecer rico. Parecer bondoso. Parecer honesto. Parecer calmo, compreensivo, afetuoso... parecer, enfim, perfeito a todos e por todo tempo. É opção cega por um automartírio visceral. Jamais se conseguiria essa façanha. Primeiro porque objetivamente impossível ser bom em tudo. Segundo porque, é o pior, coloca-se na eterna condição de escravo do julgamento alheio, jamais unânime, muito menos isento. E perigoso, submetido à avaliação de invejosos. Também para não cair no ridículo da caricatura daquilo que sonhamos.

Portanto, temperemos a nossa convivência com as aparências. Seja ao analisar a aparência alheia ou ao nos envolvermos com a preocupação com a nossa própria aparência. Para evoluir naquilo que de nós não gostamos.

Seria bom respeitarmos o alheio e guardarmos nossos conceitos para o trato de convivência e defesa, mas principalmente aprendermos a assumir a nossa própria aparência, real, verdadeira, para gostarmos de nós e não nos tornar tão reféns dos avaliadores superficiais, descomprometidos, muitas vezes irônicos e inimigos.

Os que não criam essa resistência podem se expor a avarias psicológicas extremas.

Sejamos nós, o nós que gostamos, pois de fato a única verdade que conhecemos é a de dentro de nós.

E que fiquemos alertas, afinal, as aparências enganam.

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