O ator Matthew Perry, falecido em outubro de 2023, lançou sua autobiografia um ano antes, com o título “Friends (Amigos), Amantes e Aquela Coisa Terrível”. Já era pública a luta de Perry contra o vício em drogas e álcool, a tal “coisa terrível”, mas a descrição completa e detalhada dos muitos anos de vício e consequências é arrasadora. O homem sabe descrever dor!
Até então, mesmo sendo muito aberto sobre o assunto, a impressão que ficava era de uma pessoa talentosa que tinha um problema, ainda que sério. Mas não. Afinal, o centro da vida de Perry era o vício, que ocupava quase todo o seu tempo e a sua melhor atenção. Trabalho, amigos, relações, tudo dependia do que o vício permitisse.
A fama e o dinheiro tornaram tudo pior. Ele mesmo estima, em vários milhões de dólares, o que gastou tentando ficar sóbrio. Por breves períodos, conseguiu, mas algum evento sempre o lançava de volta ao redemoinho trágico que, por fim, lhe tirou a vida.
Grande contraste com a vida de uma certa religiosa. Ainda criança, começou a trabalhar como pastora, cuidando das ovelhas da família, que, pobre, em meio a outras iguais, vivia do que conseguia extrair da terra. Sobreviver ocupava cada minuto do dia. Descanso, só aos domingos, porque assim mandou o Senhor, o que se cumpria em comunidade, todos unidos nos mesmos valores.
A descrição do dia a dia da família encanta pelo quadro de harmonia em que qualquer problema, e os havia muitos, era enfrentado sem drama nem temor; e o apoio prático entre maridos e esposas, pais e filhos, parentes e vizinhos, transbordava afeto. Assim são as memórias de Irmã Lúcia, mais conhecida por ser uma das videntes de Fátima.
Biografias sempre são portas entreabertas para a vida de outros. É inevitável refletir sobre os erros e acertos alheios, assim como imaginar-se naquela vida. Como seria viver aquela existência? Em uma realidade alternativa, eu trocaria de lugar com essa pessoa?
No caso do milionário, famoso, e com o mundo aos seus pés, a resposta seria um assustado “não”, e paz à sua alma. Já no caso da pobre pastora, perdida entre afazeres, em uma aldeia no meio de nenhures, fica o anseio de incorporar umas ovelhas metafóricas ao dia a dia. E paz a todos nós.