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Bem-vindo, Professor

Ana Maria Leal Salvador Vilanova
Publicado em 10/03/2026 às 18:37
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No livro “Adeus, Mr. Chips”, do autor James Hilton, publicado em 1934, conhecemos o Sr. Arthur Chipping, professor de clássicos em uma fictícia escola para meninos na Inglaterra. Habitualmente muito convencional, Mr. Chips se descontrai ao casar-se com a adorável Katherine Bridges.

A história já foi vertida para filme várias vezes, inclusive uma versão musical, em 1969, com o extraordinário ator Peter O’Toole, absolutamente dominando o papel principal.

É inesquecível a cena em que Mr. Chips (alerta de spoiler!) recebe a notícia da morte de sua jovem esposa e do filho recém-nascido no parto. Ele estava em plena atividade e tinha saído da sala cheia de alunos para receber a triste nova.

O alegre jovem mestre que se levanta para receber o recado é outra pessoa ao voltar. Sente-se o peso da trágica revelação no seu rosto transfigurado. Ao se sentar, parece carregar o peso do mundo. É, então, alertado por um dos pupilos para as muitas cartas endereçadas a ele sobre a mesa à sua frente.

Mecanicamente, ele as vai abrindo, mas, estranho, todas estão em branco. Ainda em choque, ele pensa, vagamente, que algo peculiar se passa. Mais tarde, se dá conta de que era primeiro de abril, e as cartas sem conteúdo eram uma brincadeira do Dia da Mentira. Dois fatos estranhos, anormais, que não condizem com o que se espera da realidade, foram demais para um ser humano digerir e só fizeram sentido muito mais tarde.

Assim parecem estar vivendo os brasileiros neste momento. Ver notícias é acompanhar dois enredos indigestos. Por um lado, uma guerra muito longe, mas que seguramente vai ter impacto local. Por outro, um escândalo nacional financeiro, com nuances políticas e outras mais. Um não tem nada a ver com o outro, mas ambos, cedo ou tarde, vão bater à porta, que a realidade não perdoa. E, desta vez, não é primeiro de abril.

Mr. Chips seguiu sua carreira até se aposentar. Seu percurso na escola, com dedicação e cumprimento do dever, inspiraram o mundo caótico da época, que aspirava por tempos mais simples e com valores sólidos. Em tempos de confusão e podridão, a melhor resposta é seguir o caminho reto.

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