Memória é uma coisa engraçada. Tenho essa lembrança de estar subindo umas escadas estreitas. Comigo estão meu pai e uma irmã; eu tinha uns 6 ou 7 anos. Lá em cima, uma sala fechada, dois senhores com voz forte leem uma lista interminável de nomes, um após o outro, alto e claro, em enormes microfones. Depois de falar com alguém que estava por ali, vejo meu pai lendo um papel, deve ser outro cheio de nomes e, no que me pareceu ousadíssimo, pega sua caneta e anota qualquer coisa ali. Não entendi nada, mas, naquela idade, isso é normal, estamos aprendendo o mundo.
A ocorrência foi suficientemente incomum para ficar gravada, ainda mais porque foi num dia especial para a família. Hoje em dia, quem se classifica para uma universidade só tem o trabalho de consultar a informação na internet. Que coisa mais sem graça! Antigamente era tudo na emoção. Depois de passar dias sofrendo no vestibular, como se chamava o exame de admissão, era esperar o grande dia dos resultados. E haja paciência e nervos.
O dia chegava, e o sofrimento não acabava. A coisa era hora a hora, minuto a minuto. Quem podia ia pessoalmente à universidade e consultava as listas fixadas nas paredes. Mas era longe e a incerteza do resultado desencorajava. E se a pessoa não passasse? No dia seguinte, viria tudo publicado no jornal, mas esse era para guardar para a posteridade. Não dava para terminar o dia sem saber. Restava o rádio.
Os nomes vinham por ordem alfabética, dentro de cada curso. Começava pela “administração” e seguia, um após o outro. A cidade inteira ficava num frisson. Todo mundo tinha alguém, um familiar, um amigo, um conhecido, disputando uma vaga. Quem passava estava automaticamente incluído nos trotes que dominavam o centro da cidade. Grupos de veteranos comandavam calouros em tarefas engraçadas, nessa época não estava muito na moda a humilhação, ainda bem. Habitualmente o trote consistia em muita tinta, roupas arruinadas e petição de dinheiro em semáforos, para gastar mais tarde em festa.
Minha mãe concorria a uma vaga na odontologia. Já éramos seis filhos e toda uma vida estruturada quando minha mãe decidiu terminar o segundo grau e prestar as provas de admissão à faculdade. Foi uma novidade e a família toda participou de alguma forma. Naquele dia ela estava, como em todos, atarefada com mil coisas, mas com o ouvido atento ao rádio, esperando chegar o seu curso. Mais animados e barulhentos estávamos os filhos. Cada atualização importante era ecoada desnecessariamente pela prole, ninguém se segurava.
Quando o curso “odontologia” foi anunciado, colocamos cadeiras em círculo no meio da sala, sentamos e aguardamos impacientemente, em volta do rádio, olhos postos na mãe. Seis filhos entre 4 e 15 anos não são capazes de muito controle, assim, qualquer comentário era seguido de muitos shhhhh. Ainda bem que não tivemos que esperar muito até a letra c, e veio: “Carmen Leal Salvador”, e o mundo explodiu.
Éramos oito, gritando e pulando. Acho que não havia lugar no mundo mais feliz que aquele. Por alguma razão, alguém abriu um ou mais sacos de fubá em cima da minha mãe. Era a nossa versão de trote, pensando bem, perfeito. Foi bem comemorado e, depois, saiu tudo facilmente com um banho.
Só muitos anos mais tarde compreendi o que tinha visto naquele dia. Meu pai, Mário Salvador, sendo um comunicador e muito ativo na vida da cidade, tinha amigos na rádio. Também era muito impaciente e não aguentou esperar a listas intermináveis. Arranjou uma desculpa qualquer, pegou duas filhas mais novas como álibi e foi lá descobrir se a esposa tinha passado nas provas. Encontrou o nome dela e até anotou na folha “oficial” da rádio! Depois voltou para casa e foi participar das festividades, como se nada soubesse.
Minha mãe se formou dentista, trabalhou, e ainda fez mil coisas antes de partir, há 16 anos. Numa das últimas vezes que fui ao Brasil, lembrei-me de perguntar ao meu pai uma dúvida que me ocorreu sobre aquele dia. Nós, os filhos, não sabíamos de nada, mas será que, ao chegar à nossa casa, ele não teria contado à esposa o resultado? Ou a deixaria desfrutar a descoberta junto com todos? Fiquei sem saber, os últimos anos foram algo confusos. Mas não importa.
Hoje meu pai partiu. E eu estou longe. Quem mora em outro país pode confirmar, isso é o mais difícil. Acompanho os eventos a distância, enquanto fico com a lembrança daquele dia. Nós, os oito, sentados em círculo, na expectativa. Mas ele sabia. Ficou ali nos olhando e deixando-nos viver aquele momento, sabendo que tudo ia acabar em festa, o coração pleno.
Ontem a família fez outro círculo, dessa vez à volta dele, quando recebeu a unção dos enfermos. Não pudemos estar todos, mas filhos, netos e cônjuges, mais uma vez, se reuniram, desta vez para a despedida. Sacramento para meu pai, bênção e consolo para todos nós.
Também me despeço deste espaço tão generosamente concedido. Assumi a coluna que era originalmente do meu pai, Mário Salvador, e agradeço imensamente o carinho de todos. Obrigada por tudo.
Ana Maria Leal Salvador Vilanova, com mais quatro irmãs e um irmão, é filha de Mário Salvador e de Carmen Leal Salvador