Volta e meia alguém escreve uma publicação em rede social mais ou menos assim: “diga uma frase que não seria compreendida em...” e segue um ano longínquo, como 1980. Enfileiram-se exemplos, como: “preciso de mais espaço de armazenagem na nuvem” ou “fulano viralizou”.
Algo que seria difícil explicar para um jovem daqueles anos é a dificuldade de identificar os chamados “hoax” (farsas) na internet. Não que não houvesse mentiras, boatos e outros ruídos na comunicação de outrora, mas a internet trouxe velocidade e volume aos charlatães.
Essas farsas podem começar como enganos sinceros, mas algumas são, claramente, criação maliciosa. E o exemplo mais gritante se tornou conhecido como o “fine people hoax” (farsa da gente boa). Foi numa manifestação nos Estados Unidos em que tribos diferentes se enfrentaram num protesto que terminou mal. Entre eles havia, de fato, uns poucos ultrassupremacistas conturbando o ambiente, mas a maioria apenas queria expressar sua opinião.
O presidente à época lamentou a situação e disse que havia pessoas boas dos dois lados da contenda, salvaguardando expressamente que não se referia aos tais supremacistas, mas aos que simplesmente discordavam entre si. Apesar da comunicação clara e perfeitamente razoável, até hoje há quem diga que Donald Trump, o presidente em questão, disse que os extremistas eram gente boa. Uma vez que ele não poderia ter sido mais claro, e a fala em questão segue disponível no mundo virtual para quem quiser ouvi-la, é de se perguntar por que tanta gente insiste em permanecer alucinando.
Do mesmo modo, ainda há quem acredite que ele matou peixes no Japão; destratou veteranos da Segunda Guerra Mundial, na França; chamou todos os imigrantes de animais; conluiou com nações estrangeiras, e mandou as pessoas beberem água sanitária para tratamento da Covid. Fora vários outros “hoaxes”, cada qual mais estapafúrdio que o anterior.
Seguir crendo em algo cuja falsidade é facilmente demonstrável é apenas mais uma patranha dos nossos pobres egos, defendendo seu frágil equilíbrio, preferindo a ignorância confortável à realidade indesejada. Pode-se gostar ou não do Laranjão, como Trump é carinhosamente chamado no Brasil, mas não é o caso de temer seu mandato que agora se inicia. Boa sorte, América.