ARTICULISTAS

Semeando Heróis

Ana Maria Leal Salvador Vilanova
AnaMariaLSVilanova@gmail.com
Publicado em 24/03/2026 às 18:14
Compartilhar

Um homem dentro do carro está desacordado. Ao redor do veículo, muitos homens maus. Sob comando do chefe, eles empurram o carro para dentro de um buraco e começam a jogar terra por cima. Parece o fim de tudo. Mas, não.

Porque o herói desperta, dá partida no carro e, para estupefação geral, consegue sair, quase voando, atropelando quem está à frente. Desnecessário dizer que vai derrotar todos os bandidos em lutas cuidadosamente coreografadas e executadas. O herói é, claro, Chuck Norris.

A cena exagerada, comum nos filmes do ator, é mostrada no excelente documentário “Chuck Norris contra o Comunismo” (2015). Ver filmes, uma rotina comum nos lares do Ocidente, era na Romênia dos anos 80 um ato de subversão total. Fitas VHS eram contrabandeadas a grande custo, dubladas toscamente pela mesma pessoa, a legendária Irina Nistor, e discretamente distribuídas para visionamento em sessões clandestinas.

Aquele povo, vivendo sob opressão esmagadora, tinha um vislumbre de outra existência possível. Além de mostrar o estilo de vida lá fora, as fitas introduziram outro mundo na mente dos romenos. Junto com as músicas e danças, moda e cultura pop, o povo experimentava a sensação de liberdade e a figura do herói, aquele que luta contra mil adversidades e, no fim, vence.

Também os vilões diziam algo, como no filme “Quo Vadis” (1951), quando Nero vai contra o próprio povo, o que desperta o comentário: “Olha! Igual o Nicolae Ceaușescu!”. Já o filme “Rocky” (1976) inspirou a dedicação ao treino até a vitória do desfavorecido. E, assim, muitos mais.

A cabeça de toda a organização era o Sr. Zamfir, que, perseguido, encontrou a estratégia perfeita para continuar operando. Presenteou agentes do sistema com cópias dos filmes. Também eles gostavam do conteúdo e, no fundo, queriam mais, e assim seguiu a operação.

A pequena centelha implantada no imaginário coletivo, entre muitos outros fatores, ajudou a dar o empurrão final na derrota do regime decadente. Ficou a lição para ditadores do mundo – cuidado com conteúdo indesejado –, o que explica a obsessão com a censura de redes sociais ainda hoje. Não conseguiram antes, não conseguirão agora. E viva Chuck Norris.

 Ana Maria Leal Salvador Vilanova

Engenheira civil, cinéfila, ailurófila e adepta da caminhada nórdica

AnaMariaLSVilanova@gmail.com

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por