O Natal é um tempo em que o céu parece se aproximar da terra. As luzes que enfeitam as ruas apenas refletem a verdadeira claridade: a Estrela que brilha dentro de nós, reacendendo a fé, a caridade e a certeza de que o Deus Menino veio para criar pontes, jamais muros. Seu nascimento inaugura o amor que se reparte, a misericórdia que desce até os lugares mais humildes.
Se eu contasse nossos natais de infância, poucos acreditariam! Eram lindos, marcados pela espera dos presentes, pela árvore iluminada e pela família reunida em alegria ruidosa, muita bebida e alegrias.
E sobre Papai Noel… ainda hoje o reverencio, não como um concorrente do Menino Jesus, mas como seu aliado. Não entendo quem o trata como um “Judas Iscariotes”, desejando apedrejá-lo ou enforcá-lo. Ele não veio para substituir Cristo; é, na verdade, o reflexo de São Nicolau, o santo que entendeu a mensagem do Evangelho: repartir com os pobres, cuidar dos pequenos, transformar a própria vida em um gesto de amor.
Talvez seja por isso que a lembrança dos nossos 13 anos ainda me comove com tanta força. Foi naquele Natal que eu e Ani enxergamos o milagre da simplicidade escondido atrás da figura de Papai Noel. Insistíamos em vê-lo “real”. Nosso primo, já sem a ilusão das festanças de Natal, disse: “Eu levo vocês até ele”.
E fomos caminhando até a periferia, onde a luz era pouca, mas a verdade costuma ser mais intensa. Entramos numa casa simples e lá estava ele: aflito, com a roupa alugada e amassada, acomodando um travesseiro na barriga. Um rapaz magrinho, humilde, mas disposto a fazer o bem. Pediu ao primo um dinheiro emprestado, ainda não havia almoçado. Havia sido contratado para entregar presentes em casas, cruzando toda a cidade de bicicleta naquele dia de véspera de Natal, cumprindo sua pequena missão.
Com um misto de vergonha e pureza, contou que, no caminho, viu um menino descalço. Parou a bicicleta, tirou um carrinho de corda e lhe entregou. O menino, espantado, perguntou: “Moço, você roubou isso?”. E aquele Papai Noel improvisado quis saber se estava muito diferente do “verdadeiro”. Dissemos que não, que estava muito bonito, muito parecido com o verdadeiro Papai Noel.
Aquela cena nos feriu a alma, foi como pisar descalças num chão ardente. Diante de nós, um homem pobre vestia o símbolo da generosidade… sendo mais generoso do que qualquer fantasia. E nós, sem sabermos lidar com o choque da realidade, fomos injustas com o primo, demos uns tapas nele, tentando proteger a ilusão e o encanto da infância. O Papai Noel gordo e rosado não era o real. O primo apenas nos mostrou o “Bom Velhinho” como realmente ele era: alguém vivendo a caridade. Ele não encobriu Cristo; ele O revelou.
Hoje sei: fomos covardes por não aceitarmos a realidade. Porém, foi naquele homem simples que o Menino Jesus nos visitou. Foi naquele gesto de dar ao pequeno descalço que a estrela de Belém reacendeu para nós. Papai Noel de bicicleta, roupa amassada, travesseiro na barriga, mas com um coração de servo de Deus.
“Mudaria o Natal ou mudei eu?” é o verso final do famoso “Soneto de Natal”, de Machado de Assis, que resume sua melancolia, questionando se a magia do Natal mudou ou se foi ele próprio quem mudou com o tempo. Já no fim da vida, ele disse a seu filho Mário de Alencar: “A vida é boa”. Uma despedida luminosa, quase uma oração.
Pensemos: o Menino Jesus e o Papai Noel caminham juntos. Um nos dá o amor que nasce, o outro nos lembra que esse amor se reparte. É a mesma estrela que segue a nos conduzir.
Papai Noel nunca tirará o brilho de Jesus na manjedoura. Jesus é a Estrela que não se apaga.
Dois beijos...
Anina
gemeasanina@hotmail.com
Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4
OBSERVAÇÃO:
Agradeço à jornalista Lídia Prata, a Márcio Gennari e equipe pelas publicações semanais de meus artigos, textos diferenciados que buscam refletir sobre os comportamentos humanos, com suas alegrias e fragilidades, sempre despertando profundas reflexões. Tenho recebido de meus leitores um feedback motivador, pelo qual também sou imensamente grata.
No momento, farei uma pausa em razão de algumas viagens.
Gratidão eterna.