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A Tesoura na Gaveta

Ani e Iná
gemeasanina@hotmail.com
Publicado em 28/03/2026 às 11:50
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Esses dias, levei um susto. Não daqueles que fazem o coração disparar por notícias graves, mas um susto íntimo, silencioso: onde estava a minha tesoura? Minha tesoura, assim mesmo, com pronome possessivo carregado de afeto – meu bem mais precioso.

Revirei a gaveta. Papéis, linhas soltas, botões órfãos. E lá estava ela, esquecida no fundo, quieta, sem qualquer barulho que a denunciasse. Diferente das pessoas, os objetos não chamam pelo nome. Esperam.

Ao segurá-la, senti aquele peso conhecido. Não era apenas metal frio. Era memória.

Minha mãe, dona Filhinha, tão jovem quando fez curso de alta costura em Araguari, sua terra natal, manejava aquela tesoura como quem rege uma orquestra. Lembro-me do som exato do corte atravessando o cetim de seda, o crepe, a organza, tecidos que pareciam guardar a promessa dos domingos. Fitinhas, bordados delicados, modelos modernos que nos faziam caminhar, eu e minha querida irmã gêmea Ani, com um orgulho quase secreto.

A tesoura abria caminho no tecido como quem abre destino. E nós, meninas, vestíamos mais do que roupa, vestíamos o capricho dela.

Curioso como certos objetos se transformam em relicários pessoais. Conheço quem guarde cartas, fotografias, um frasco de perfume já evaporado. Há quem conserve uma blusa, um livro, uma correntinha, um simples bilhete, qualquer coisa que ainda carregue a última respiração da rotina partilhada. Não é o objeto que importa. É o que ele sustenta invisivelmente.

Lembro-me do filme Náufrago, lançado há anos. Sozinho numa ilha, o personagem cria laço com uma simples bola de vôlei. Não era loucura; era humanidade. Quando a perde, a dor é quase insuportável. Ali compreendemos: o ser humano precisa ancorar o afeto em algo, mesmo que esse algo seja apenas matéria.

Ao segurar minha tesoura, sinto um pequeno vazio, a ausência que não se resolve, mas também uma leveza imediata. Como se, por um instante, minha mãe estivesse ali, medindo a barra dos nossos vestidos, pedindo que ficássemos paradas.

Alguns objetos não servem apenas para cortar tecido. Servem para costurar o tempo. E essa é uma verdade que carregaremos para sempre: há coisas que, embora inanimadas, mantêm viva a parte mais delicada da nossa história.

Dois beijos

 Anina

gemeasanina@hotmail.com

Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4

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