Quem trabalha na faxina, na jardinagem ou até na coleta de recicláveis merece não apenas respeito, mas também ser ouvido. Gostamos de conversar e tratar bem essas pessoas que tanto nos ajudam no cotidiano. E, em quase todas elas, vemos o orgulho estampado ao falar dos filhos diplomados, seguindo caminhos diferentes daqueles que precisaram trilhar.
Conversando com meu jardineiro, após uma pausa, seus olhos se entristeceram ao falar do filho caçula: “Meu filho vai largar o trabalho no supermercado. Não tem tempo para namorar, ir à casa dos avós, jogar bola. Está triste, cansado. No domingo, em sua única folga, só quer dormir”. Uma lágrima escorreu de seus olhos.
Meu coração ficou sem ar. Lembrei-me imediatamente dos meus alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde ministrei aulas por 15 anos no Serviço Social da Indústria (Sesi). Jovens que chegavam abatidos às aulas, agarrados à esperança de um futuro melhor. Diziam que o despertador os agredia. Saíam para o trabalho vestindo o uniforme com o corpo ainda pesado, muitos às 4 ou 5 horas da manhã para pegarem o ônibus, tentando sobreviver a uma rotina exaustiva. Eram jovens que trabalhavam seis dias por semana, de segunda a sábado. A vida transformava-se em uma linha reta entre o relógio de ponto e a cama. A tão sonhada folga chegava aos domingos, única e esperada.
A aluna, já senhora, que trabalhava como caixa de supermercado e estudava comigo à noite, dizia que a folga era apenas uma ilusão. Não havia descanso. Domingo era o dia de lavar roupas, organizar a casa, conferir contas e encontrar algum intervalo durante o trabalho para pagá-las. Dizia que os filhos cobravam sua presença, enquanto ela carregava a culpa de não conseguir estar verdadeiramente com eles, mesmo dentro de casa: exausta, silenciosa, quase irreconhecível diante do próprio cansaço.
Essa dura realidade dos trabalhadores de fábricas e supermercados brasileiros submetidos à escala 6x1 sempre me afligiu. Ao entrar em sala de aula, eu via naqueles olhos cansados uma alegria sincera. Mesmo doentes, muitos iam às aulas, quase nunca faltavam, porque ali não existia o relógio de ponto. Aquele era o momento deles. Era na sala de aula, como psicóloga, que eu ouvia jovens e trabalhadores mais velhos: responsáveis, esforçados, sobrevivendo com um salário mínimo.
Nesse dia, em conversa com o jardineiro, lembranças daquela época, peguei as listas de chamada, fotos, fui relembrando as palavras, os rostos, as histórias de cada um deles.
Quem não vive a escala 6x1 dificilmente compreende o peso que ela carrega. Ao rever as lembranças, encontrei novamente aqueles rostos cansados, parecendo dizer: “Não somos máquinas programadas para produzir sem parar. Somos pessoas, com limites físicos, emocionais e necessidades afetivas”.
Hoje, acredito que a mudança para dois dias de folga traria consequências extremamente positivas: mais motivação, melhor rendimento nas empresas, na educação, mais convivência familiar e menos adoecimento emocional. Essa reivindicação é antiga, não é contra o trabalho, e sim contra a exaustão humana. Sempre considerei desumano um modelo de trabalho que se torna cada vez mais insustentável.
Países desenvolvidos como França, Alemanha, Holanda, Islândia, Portugal, Chile e outros já operam, na prática, com jornadas médias inferiores a 40 horas semanais, demonstrando que produtividade e qualidade de vida podem caminhar juntas. Está passando da hora de o Brasil olhar com mais humanidade para seus trabalhadores de baixa renda, oferecendo não apenas emprego, mas também respeito, dignidade e a possibilidade de viver além do relógio de ponto.
Especialistas em saúde mental afirmam que o corpo pede lazer e descanso! Todos têm direito a “ter vida”!
Dois beijos...
ANINA
gemeasanina@hotmail.com
Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4