O mundo volta a estremecer. Guerras internacionais, ditadores no poder, nações que se enfrentam com mísseis, drones e uma tecnologia guiada por inteligência artificial. Já não se luta apenas com armas nas mãos; luta-se com códigos, satélites, informações invisíveis aos olhos comuns. É uma guerra técnica, fria na aparência, mas sangrenta. E, enquanto as estratégias são desenhadas em gabinetes e telas luminosas, continuam existindo pessoas. Crianças. Famílias. Sonhos interrompidos.
Dizem que as guerras sempre existiram. Talvez por isso a memória, inquieta, recue no tempo. Quando éramos crianças, ouvíamos nosso pai contar sobre sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932, também chamada de Guerra Paulista. Falava dos confrontos na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, da ponte que liga Igarapava a Delta, do Túnel da Mantiqueira. Lugares hoje silenciosos, mas que um dia ouviram o estampido seco dos fuzis.
Ele havia se alistado como voluntário. Contava dos tiroteios, das trincheiras inimigas, do medo constante e da tensão que parecia nunca dormir. Recordava a chegada de um emissário com uma bandeira branca, pequeno sinal de humanidade em meio ao caos. Foi um período nebuloso, que jamais esqueceu.
Temos guardados o capacete, o cantil, uma granada desativada, balas de fuzil. Não são troféus. São testemunhos. Ao mostrá-los, seus olhos não brilhavam de glória, mas de memória, como quem revisita um tempo que preferia não ter vivido. Personalidades como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Benedito Valadares participaram daquele cenário pelo lado mineiro. Mas, para além dos nomes registrados nos livros, havia jovens anônimos, como meu pai, que carregaram no corpo e na alma as cicatrizes do conflito.
O livro A Batalha de Delta, do acadêmico Paulo Fernando Silveira, detalha com realismo aquele percurso, inclusive as notícias publicadas pelo jornal Lavoura e Comércio. A história ali narrada não é apenas política; é profundamente humana.
Hoje, ao ver o mundo novamente sob tensão, percebo que a guerra nunca é apenas um capítulo distante. Ela atravessa famílias, molda silêncios, constrói lembranças difíceis. Muda a tecnologia, muda os discursos, mas a dor continua a mesma.
Que a história nos ensine mais do que se repita. Porque, se é verdade que as guerras sempre existiram, também é verdade que, em cada geração, há quem continue acreditando que a paz é o único legado que realmente vale a pena deixar.
Dois beijos
Anina
gemeasanina@hotmail.com
Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4