Muitas vezes, estamos caladas e, de repente, alguém surge com a clássica pergunta: “Posso te dar um conselho?” Sem perceber, essa pessoa invade nosso espaço, tentando direcionar a nossa vida. Por educação, ouvimos. E logo vem o “eu, no seu lugar, faria…”. Mas essa pessoa não está no nosso lugar, não carrega nossas dores, não conhece a profundidade e a complexidade do que estamos vivendo.
E quantas vezes nós mesmas fazemos isso? Ao falar com um filho, sobrinho ou neto adolescente, movidas pelos nossos medos, frustrações e limitações, tentamos aconselhar sem compreender totalmente a realidade do outro. Em vez de ajudar, podemos acabar gerando ansiedade e frustração, como se existisse um manual certo a ser seguido, quando, na verdade, cada uma precisa viver, aprender e até errar por conta própria.
Lembro-me de quando tínhamos 18 anos. Nosso pai, com um gesto firme, balançou seus ombros e disse: “Agora estou sacudindo minhas pulgas”. Em seguida, colocou a chave da casa em nossas mãos e completou: “Agora podem encontrar o caminho da vida de vocês”. Naquele momento, nós não sabíamos ao certo se aquilo era sabedoria ou leviandade. Mas uma coisa é certa: crescemos ali. A partir daquele dia, entendemos que precisávamos trilhar nosso próprio caminho. Assumir a própria vida foi libertador, embora também assustador.
Com o tempo, percebemos que, quando uma amiga nos confia um problema, enxergamos apenas uma parte da situação. Não sentimos suas dores por inteiro nem compreendemos toda a complexidade do que ela vive. Por isso, talvez a atitude mais sábia não seja aconselhar, mas ouvir com atenção, acolher com respeito e dizer que encontrará, no seu tempo, o próprio caminho, com fé e esperança.
A autonomia é necessária. Ninguém precisa de conselhos não solicitados de leigos; para isso, existem psicólogos, terapeutas e psiquiatras, preparados para compreender com profundidade nossas inquietações. A tirania de uma amiga dizer “eu faria assim…” é um conselho muito vago, pois não arcará com as nossas consequências. Ninguém mede, com fita métrica, o tamanho dos nossos problemas ou dos nossos medos.
É hora de refletir: devemos seguir nossa voz silenciosa e saberemos qual atitude tomar.
Dois beijos
Anina
gemeasanina@hotmail.com
Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4