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O lixo do vizinho

Publicado em 08/04/2026 às 08:42
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Hoje, li uma crônica de Luís Fernando Veríssimo, em que dois vizinhos se encontraram na área de serviço, cada um com seu pacote de lixo. Era a primeira vez que se falavam. Começaram a conversar sobre o lixo de cada um e, de repente, surgiu o convite: “Vamos jantar juntos?”

Fernando Veríssimo, esse mestre da ironia fina e do humor inteligente, deixou o tema do lixo ecoando na minha cabeça. Ao fazer minha caminhada semanal, passei a observar os sacos de lixo nas calçadas como quem lê histórias silenciosas.

Um vizinho jovem, que mora sozinho, deixa todas as manhãs um saco preto abarrotado. Desperta em mim certa curiosidade: o que será que enche sempre aquele saco? Seriam objetos antigos de sua falecida mãe?  Outro vizinho, ao lado, exibe caixas e mais caixas. Estarão todas vazias? Estará vendendo produtos de beleza? Alguns vizinhos deixaram suas lixeiras vazias. Teriam viajado, mudado ou apenas vivido menos naquele dia? Um pouco mais adiante, um saco sempre carregado de folhas verdes denunciava um quintal em constante cuidado.

No prédio da esquina, subindo o morro, havia uma grande lixeira coletiva com sacos variados. Um gato espalhou vários papéis de um deles pela pracinha, que ficaram ao redor da estátua de bronze da acadêmica e escritora D. Eunice Pühler. Por um instante, pensei, com certa emoção, se não seria obra da própria Providência Divina.

Na minha época, não havia saco plástico; o lixo era coletado em latões, tambores ou caixotes. Todos os moradores reclamavam dos “garis”, pois faziam uma barulheira dos diabos.                                                                                   

Tem vizinho que coloca seu lixo raquítico na nossa lixeira. Alguns deixam garrafas, maços de cigarro amassados, vasilhas de isopor com restos de comida, lata de cerveja vazia, garrafas de plástico, que aparecem sem permissão, dificultando o trabalho do “gari” e dando a impressão de que somos grandes lambões.

Vi uma lixeira organizada, tudo separadinho: um saquinho do Bahamas, outro do BH, outro do Mart Minas. Pensei: esse aí ou é comilão assumido, ou faz pesquisa de preços com dedicação.                                                           

Essa curiosidade que nos leva ao lixo do vizinho não é apenas pelo que ele descarta, mas por aquilo que revela sobre sua vida, seus hábitos e escolhas. Um lixo bem organizado, com descartáveis separados para reaproveitamento, mostra um morador consciente, pois não só preserva o meio ambiente, como também oferece oportunidades de trabalho e dignidade para aqueles que vivem dessa atividade. É algo muito bonito de se ver.

Em contrapartida, já chegando à Vila Celeste, passando perto de um bar, deparei-me com um monte de lixo no chão: uns oito saquinhos e um aberto, com um urubu pousado sobre ele, comendo o que havia lá dentro.

E segui minha caminhada pensando nisso tudo... como até o lixo pode contar histórias e nos fazer refletir. No fundo, a vida está nesses detalhes simples, que muitas vezes passam despercebidos.

Dois beijos...

 Anina

gemeasanina@hotmail.com

Academia de Letras do Triângulo Mineiro – Cadeira nº 4

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