ARTICULISTAS

Preservar e modernizar

Ani e Iná
Publicado em 02/12/2025 às 17:31
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Todos nós nos encantamos com os casarões antigos: suas fachadas imponentes, os portais de madeira maciça, as janelas tão grandes quanto as portas. São construções que guardam história, tempo e voz.

Em Araguari, o nosso tio, irmão de mamãe, ergueu um palacete que chamava a atenção de todos. O material vinha de longe: vitrais coloridos, um jardim de inverno exuberante, detalhes que pareciam nascidos de um sonho. Tudo ali era grandioso, e nós, ainda jovens, deixávamos o olhar se perder em cada fresta, em cada brilho do vidro, em cada canto daquele cenário de encantamento. Era ali, naquele palacete, que nos hospedávamos nas férias.

Casarões não são apenas construções. São fragmentos da alma de uma cidade: identidade, memória, raízes. Preservá-los é manter vivo o que nos formou. E naquele palacete também vivia parte da nossa história.

Anos depois, quando nossos tios se mudaram e o imóvel foi vendido, voltamos, já adultas, para rever o encanto da infância. Mas, pela rua, o que ouvimos foi o som de máquinas derrubando as paredes antigas. Um barulho de despedida, como se a cidade ignorasse que um capítulo inteiro estava sendo arrancado da própria memória. No entanto, algo permaneceu: memória nenhuma é demolida quando habita o coração.

Quando a então presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, Terezinha Hueb de Menezes, pediu-nos que a representássemos no Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba (Conphau), fomos com coragem e curiosidade. Lá encontramos uma equipe de excelência: o jovem presidente Marcos Bilharinho e seus colaboradores competentes.

De repente, ali estávamos num grupo técnico, repleto de termos que nos soavam estranhos. Sentimo-nos como “surdas em jogo de bingo”. Mas não desistimos. Com a pasta do Patrimônio Histórico em mãos, ouvindo, perguntando, aprendemos. Tombamento federal e municipal, inventário, registro, vigilância, desapropriação… outras formas de proteger o que não pode ser refeito. Não faltamos a uma reunião sequer. Tivemos um verdadeiro mestre: Gilberto Rezende, nosso guia na trilha do conhecimento, e Henri Brandão, grande conhecedor de imóveis tombados em Uberaba. Aprendemos que até mesmo um casarão tombado corre risco de desaparecer.

Muitas vezes, confunde-se progresso com apagamento da história. O patrimônio não é obstáculo: é herança, é identidade. Porém, entendemos que não é viável permitir que casarões tombados se tornem ruínas esquecidas. O tombamento é uma honra, mas também uma responsabilidade. Cabe ao proprietário preservar, restaurar e impedir a deterioração. Permitir que se destruam pelo tempo é crime contra a memória coletiva.

Uberaba, diversa e viva, ainda conserva casarões que resistem. Monumentos de afetos, de gerações, de histórias que se recusam a morrer. Modernizar, sim. Apagar, nunca. Crescer não implica destruir: podemos evoluir sem negar as raízes que nos sustentam.

Sempre defendemos que, quando a manutenção de um casarão se torna insustentável a ponto de transformá-lo em abrigo de gatos e cachorros, cria-se um impasse: não pode servir à memória nem pode gerar vida. Manter ruínas não é preservar a vida ao redor. A conservação cega de casarões que já perderam estrutura e utilidade pode engessar a cidade, limitando o desenvolvimento e empobrecendo oportunidades. É preciso equilíbrio: reverenciar o que resta de história, mas permitir que o espaço dialogue com o presente. Preservar quando há sentido; reconstruir quando o que existe é apenas sombra.

Como era bom jogar baralho na casa de Neuza Borges, no carteado com Dona Laurinha, tia Elim e tia Maria Helena (Cotinha)! Ani estava sempre lá, rindo com a gente. O quintal, ah, o pomar! Parecia ter sido imaginado pela memória antes mesmo de existir. Voltei ali um dia. Andei devagar, como quem pisa num tempo que já não é seu. As lágrimas vieram, sem pedir licença. As paredes, antes firmes, estavam rendidas à erosão. A casa, silenciosa, sem donos, sem destino. Tudo envelhece, até o que acreditamos eterno. As vozes que preenchiam os cômodos se calaram. E o mais doloroso é saber que aquele casarão não caiu de repente: ele foi se demolindo aos poucos, dia após dia, como memória que se apaga quando não é mais contada.

O belo casarão já não tem mais vida. Como alguém tomado por Alzheimer avançado, parecia pedir, em silêncio, para ser libertado. É preciso renovar e permitir que o tempo siga seu curso.

E então compreendemos que avançar é um gesto de respeito ao tempo. O passado nos sustenta, mas é no presente que a cidade respira, e no futuro que ela floresce. O progresso é necessário: o futuro está na modernização.

Dois beijos...

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