Lembro-me perfeitamente do dia em que, parada no semáforo, vi um rapaz de aproximadamente trinta anos vendendo paçocas. Ele me entregava o doce e recebia as moedas com gratidão. Em outra ocasião, vi em outra esquina um fazendo malabarismos no sinal, esperando que eu lhe desse alguma recompensa. Eu olhava para ele e pensava: “Coitado! Que vida triste!” Mas, de repente, uma pergunta me ocorreu: será que ele se sente assim? Será que se vê como alguém digno de pena ou será que o rótulo de coitadinho é uma interpretação minha?
Afinal, será que enxergamos o outro como ele realmente é ou apenas como imaginamos que ele deveria ser?!
Minha amiga contou que sempre sonhou em levar os pais para uma linda viagem, querendo proporcionar-lhes momentos felizes. Sempre teve dó, ao viajar, de deixá-los em casa, presos à rotina, às preocupações ou à pressão do trabalho doméstico. Foi na internet que achou um litoral, lugar bonito, longe dos problemas cotidianos, para levar os pais e lhes proporcionar alegria. Mas, assim que chegaram ao destino, após três dias, ouviu a pergunta: “Quantos dias ainda faltam para a viagem acabar? Estamos doidos para voltar para casa e ficar no nosso canto!”
Esse nosso “complexo de herói” de pensar que conhecemos a realidade do outro pelos nossos próprios valores, achando que é sofrimento, leva-nos a refletir. É nesse momento que precisamos compreender uma verdade simples: nem sempre o que consideramos bom para alguém corresponde ao que essa pessoa necessita.
Quem de nós nunca pegou uma carona, por insistência de alguém, para fazer um passeio e acabou adorando a experiência? Ou aceitou uma viagem e se sentiu amarrado a uma viagem programada pelos outros, sob o argumento de que precisava mudar de ares e ficou ansioso para voltar?
Por favor, cuidado com o nosso “complexo de herói”! Talvez, inconscientemente, essa atitude nos faça sentir úteis, importantes e valorizados.
Então, vamos largar essa mania de enxergar coitadinhos por toda parte? Nem todo mundo quer ser salvo por nós.
Antes de querermos mudar a vida do outro, que tal olharmos para dentro de nós mesmos? Como está o nosso coração? Será que, nessa história toda, o verdadeiro coitadinho não é ele, que ainda precisa aprender a amar sem controlar, ajudar sem se impor e respeitar o outro sem tratá-lo como alguém inferior?!...
A verdadeira compaixão não diminui ninguém. Ela acolhe, respeita e reconhece que cada pessoa tem o direito de conduzir a própria vida. Ajudar não é decidir pelo outro, mas respeitar sua maneira de viver.
Dois beijos...