“A moradia é o lugar da dignidade”. (Papa Leão XIV)
Com a autoridade moral que lhe confere a condição de fiel depositária da mensagem humanística vinda do alto e dos fundos dos tempos, a Igreja retoma, agora em fevereiro, a “Campanha da Fraternidade”, convocando mulheres e homens de boa vontade para reflexão e ações em torno de uma questão de magna relevância social. Sob o tema “Fraternidade e Moradia”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil destaca o drama do déficit habitacional como cerne de uma provocação ética, ao adotar o lema “Ele veio morar entre nós”. A realidade crua das periferias e aglomerados urbanos oferece, muitas vezes, à contemplação angustiada das mentes e corações fervorosos, lances perturbadores da tragédia hodierna das desigualdades sociais.
No anúncio de deflagração da campanha vem sublinhado que o acesso a um teto digno é a pedra angular sobre a qual se assenta a dignidade da pessoa humana, constituindo requisito essencial para o pleno exercício da cidadania e estabilidade social. A questão denunciada na “Campanha da Fraternidade” projeta estatísticas atordoantes. O Brasil registra 366 mil moradores de rua. Em 6 anos, o índice de crescimento foi de 88%, segundo a UFMG. Já o déficit habitacional crônico atinge o patamar de 5,9 milhões de moradias, conforme a FJP.
Esses números são permeados por um fato cabuloso. O leitor saberá dizer quantos imóveis vazios existem neste nosso vasto país continental? A Campanha da Fraternidade traz, de pronto, a resposta para a indagação. E vem aí dado arrasador, que leva a um paradoxo ético e econômico, de acordo com as conclusões da CNBB: a quantidade chega a 11,4 milhões de imóveis. Extrai-se do fato uma evidência: o problema não é a falta de tijolos, mas a ausência de políticas públicas que possam garantir a função social da propriedade, como admitem os pastores.
A CNBB explica que a moradia é um fator de desenvolvimento, capaz de dinamizar a cadeia da construção civil e mitigar as vulnerabilidades acentuadas pela ocupação desordenada de encostas e áreas de risco. Para o empresariado e gestores públicos, a provocação da Igreja, simbolizada pela imagem do “Cristo sem-teto”, convoca à superação da inércia habitacional, propondo que a urbanização inclusiva seja encarada como investimento estratégico na paz social e na saúde pública.
A tradicional Coleta Nacional da Solidariedade vai acontecer no dia 29 de março, Domingo de Ramos. Paralelamente a isso, a Igreja está concitando o Estado e a iniciativa privada a estabelecerem diálogo mais consistente em torno das políticas de habitação popular. O que ardentemente se almeja, em última análise, é que a reflexão da Quaresma se transforme em solene compromisso político e econômico, capaz de garantir que a moradia seja, de fato, um lugar de acolhida e segurança para todos os brasileiros.
Jornalista
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