Nuvens plúmbeas no horizonte geopolítico. Cenário carregado de tensões, perplexidades e incertezas. O mundo não conseguiu ainda se libertar do estupor causado pela impactante operação bélica ocorrida na Venezuela. São muitas, a perder de vista, as razões pelas quais o caudilho de Caracas é globalmente reconhecido como um verdugo, violador sistemático dos direitos fundamentais. Pela mesma forma, uma saraivada de motivos explica o júbilo que se apoderou dos venezuelanos diante da perspectiva de um provável reencontro com a democracia. Mas, de outra parte, é forçoso admitir que não existe razão alguma, pretexto nenhum, justificativa civilizada qualquer que possam dar suporte à flagrante ruptura com as normas do Direito Internacional, Carta da ONU, Convenção de Genebra e normas de convivência democrática entre nações, tal qual acaba de acontecer.
Brasil, México, Espanha, Chile, Colômbia e Uruguai traduziram em Declaração conjunta o sentimento democrático universal, diante do reprovável ato capitaneado pelo presidente dos Estados Unidos. Diz a nota: “Expressamos nossa profunda preocupação e rechaço diante das ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela, as quais contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e da ameaça do uso da força, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, consagrados na Carta das Nações Unidas.”
O NY Times resumiu em duas palavras a operação: “ilegal e imprudente”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, confessou-se alarmado com “o precedente aberto”. Em desacordo com as leis americanas, Trump não notificou o Congresso do “ato de guerra” praticado. Ultrapassou, visto está, todos os limites.
O “dia seguinte” desembocou num torvelinho de fatos inquietantes. Trump deixou bem claro que os EUA ditarão as regras a serem seguidas pela Venezuela daqui para a frente. Descartou, estranhavelmente, a hipótese de recorrer aos préstimos de Marina Corina, Nobel da Paz e líder da oposição a Maduro, numa eventual composição governamental. Ameaçou a vice-presidente empossada, Delcy Rodriguez, caso não siga comportadamente suas ordens. Disse que o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, pode vir a ter destino parecido ao de Maduro. Afirmou que irá gerir os negócios de Petróleo no “País irmão” e que chegou a hora de os EUA se ressarcirem das perdas com as expropriações no passado de empresas americanas que operavam na Venezuela. Demonstrando disposição de se compor com “regime Chavista”, não mencionou hora alguma, nos pronunciamentos, a volta à democracia.
Sobra de tudo isso, numa avaliação de momento, amarga sensação. O Petróleo é o que importa, a Venezuela que se dane. Vem vindo mais coisa por aí...