Mais velho um ano, 58, sento no sofá, preparando-me para calçar o tênis. Por que preparar? Ora, esse buchinho que teima em não sumir. Mas eis que a meia furada dá o ar da graça. Não sei por que inventei de perceber isso logo hoje. Daí, pensei, “Não posso passar o dia do meu aniversário com uma meia furada. Vai que dá azar”. Já ia me levantando para buscar uma nova, quando a consciência gritou: Epa! Pode parar. Por qual motivo você vai buscar outra meia se até então essa lhe atendeu? Pelo seu novo ano de vida, a meia velha já não te serve mais?
Segui a minha arrumação, meti o pé no tênis e segui para o meu destino diário. Pela hora do almoço, encontro uma amiga em desespero por ter perdido o seu cartão do banco. Tudo bem, vamos resolver isso. Logo ao adentrarmos no estabelecimento bancário, encontro uma amiga de trabalho, que me parabeniza e passa pela porta giratória para ter acesso ao primeiro andar. Tão logo fiz o mesmo, observei que alguém esqueceu o celular na portinhola e, na hora, pensei é de fulana. Tenho de fazer algo.
Então, mais que rápido, saquei meu celular do bolso, passei pela porta, fui até a portinhola e tratei de pegá-lo o quanto antes. Falei com o vigilante, mas este me disse que eu não poderia subir com o celular; acessei o meu WhatsApp, mostrei-lhe a foto que correspondia com a mesma pessoa da tela, no que me autorizou levar até a proprietária. A qual já sentada estava, quando lhe entreguei o aparelho. Agradeceu-me muito e, tão logo desci, procurei o vigilante para parabenizá-lo pela sua atitude, por ter demonstrado serviço realmente de segurança.
Após a minha amiga conseguir outra via do cartão, acompanhei-a até o carro. Fui ao banheiro e, quando retornei, a vi conversando com o moço já conhecido do estacionamento, o qual lhe dizia que o jovem rapaz que estava sentado, e saído, era o dono do estabelecimento e que o conhecia desde há muito tempo. Cujo deu emprego a todos os amigos de infância. Inclusive ao próprio. Isto é, vindo de baixo, ascendeu e não esqueceu o seu passado, a sua origem. Ainda bem que não fez como eu quisera fazer, abandonar a meia furada na primeira oportunidade.