Pois é, Raimundo Fagner já não é somente o homem que chora sem trabalho e nem mais o único que se humilha vendo seus sonhos castrados. Todo ser humano, que estudando, se formando ou não, quer ter o lugarzinho certo onde ganhar seu pão de cada dia.
Anteontem, passava de ônibus pelo trecho da BR-101 e, antes do contorno para o Costa e Silva, avistei da janela uma travesti, marcando ponto na beira da pista. Sem dúvida, cedo ou tarde, algum motorista iria parar, mas não no intuito de lhe dar carona.
Daí, comentei com Carla, minha xará de nome feminino, se tivessem estudado sem sofrerem bullying, violência física, nem abandonarem a escola, seriam travestis médicas, advogadas, engenheiras, atendendo com profissionalismo. Assentiu com a cabeça e acresceu da falta de respeito aos tais.
Eis que, no Dia Nacional da Visibilidade Trans, leio que uma mulher trans comemora no auge de seus 35 anos de idade seu primeiro emprego com carteira assinada. Segundo suas próprias palavras: “Me encaixando na sociedade”. Segundo as minhas: Aylla Ferraz, a sociedade é que tem de se encaixar a vocês.
Como operadora de caixa de supermercado da Rede Assaí’Guardiã (queira Deus um grupo de muitos), atenderá a clientes diversos. Inclusive, alguns homens com “H” maiúsculo, os ditos machões que, chegando tarde em casa, precisam mentir para as esposas sobre o que realmente estavam a comprar nos mercadões das esquinas.