A beleza não escolhe cor. Ela se manifesta de tantas formas que seria impossível aprisioná-la em um único padrão. Mas existe uma beleza que, para mim, sempre teve um significado especial: a beleza negra.
Sou negro, e talvez seja justamente por isso que esse encanto me acompanha desde muito cedo. Ainda adolescente, bastava cruzar o caminho de uma mulher negra bonita para que meus olhos, quase involuntariamente, buscassem contemplar aquela beleza. O sorriso, o olhar, os cabelos, os traços, a elegância... havia algo que me fascinava profundamente. E eu ainda precisava tomar cuidado para não transformar admiração em um olhar inconveniente.
Com o passar dos anos, percebi que não era apenas uma questão de beleza. Havia ali algo mais profundo: identificação. Ao admirar uma mulher negra, muitas vezes encontro traços de uma história que também é minha. Uma história de ancestralidade, resistência, superação, cultura e dignidade.
A beleza negra não nasceu para pedir licença. Ela atravessou séculos de preconceito, enfrentou padrões que tantas vezes tentaram determinar o que era bonito e o que não era, e chegou aos nossos dias carregando uma força que não pode ser escondida.
E quando olho para a história brasileira, encontro essa mesma grandeza em homens e mulheres negros que transformaram o país com suas palavras, inteligência e talento: Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, entre tantos outros. São nomes que ajudaram a construir a literatura e a cultura brasileiras e que nos lembram da dimensão da contribuição negra para o nosso país.
Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade em explicar o que sinto. Há coisas que os olhos percebem, mas o coração entende primeiro.
Minha admiração pela beleza negra começou na adolescência, mas ganhou significado com o tempo. Hoje, quando vejo uma mulher negra e reconheço sua beleza, não vejo apenas um rosto bonito. Vejo personalidade, história, força, identidade e uma parte da imensa riqueza que existe em ser negro.
E talvez esse seja o verdadeiro sentido da beleza: não apenas aquilo que os olhos contemplam, mas aquilo que desperta dentro de nós.
No meu caso, a beleza negra não foi apenas algo que aprendi a admirar.
Foi algo que, desde muito cedo, aprendi a reconhecer.