Em março de 2026, a Organização das Nações Unidas reconheceu oficialmente o tráfico de pessoas escravizadas como crime contra a humanidade. Para muitos, especialmente em partes da Europa, isso pode parecer apenas simbólico, mas não é.
No Brasil, pessoas negras foram escravizadas por séculos e, após a abolição, abandonadas. Sem terra, sem escola, sem oportunidades. Libertadas no papel, mas esquecidas na prática. Enquanto isso, imigrantes europeus recebiam incentivos, moradia, apoio e acesso à educação. Havia um projeto de país, e ele não incluía os negros.
Esse passado ajuda a entender o presente. A pobreza ainda tem cor, e isso não é coincidência, é consequência.
Mas há algo que pouco se fala. Antes da escravidão, a história africana também era marcada por riqueza, poder e organização. Mansa Musa, por exemplo, é considerado por muitos historiadores como o homem mais rico da história da humanidade. Isso desmonta a falsa ideia de inferioridade que por tanto tempo foi imposta.
Outro ponto importante: nem todos os africanos escravizados eram pessoas comuns. Muitos eram príncipes, reis e membros da nobreza, capturados em guerras locais e vendidos no tráfico atlântico para a Europa e as Américas, inclusive o Brasil.
Aqui mesmo temos exemplos marcantes. Obá II, conhecido como Príncipe do Povo, era filho de monarcas africanos, lutou na Guerra do Paraguai e foi reconhecido por Dom Pedro II. Já Chico Rei, segundo a tradição, foi um rei do Congo que, mesmo escravizado, conquistou sua liberdade e ajudou a libertar outros.
Diante disso, falar em cotas e reparação não é privilégio, é correção histórica.
E há uma pergunta inevitável. Após o Holocausto, judeus receberam indenizações. Justo. Mas por que não os negros e seus descendentes?
O reconhecimento da ONU é um passo. Mas, sem reparação, a injustiça continua.
Diógenes Pereira da Silva
Tenente do Quadro de Oficiais da Reserva Remunerada da PMMG