Nos últimos dias, a internet voltou a ser inundada por vídeos afirmando que a história da pandemia foi reescrita, que Jair Bolsonaro estava totalmente certo, que as vacinas não funcionaram e que a ivermectina seria suficiente para tratar ou prevenir a Covid-19. Diante de tantas versões, cabe uma pergunta simples: o que é fato e o que é narrativa?
A ciência não é infalível, mas tem uma característica que a diferencia da opinião: ela muda quando surgem evidências sólidas. E, passados mais de seis anos do início da pandemia, já existe um volume expressivo de pesquisas capaz de separar convicções pessoais dos fatos.
É verdade que as vacinas contra a Covid-19 não impediram todos os casos da doença. Também é verdade que nenhuma vacina é isenta de efeitos adversos, alguns deles graves, embora raros. Esses eventos foram identificados, investigados e divulgados pelas autoridades sanitárias ao redor do mundo.
Também é verdade que diversas medidas adotadas durante a pandemia, como o fechamento prolongado de escolas, restrições de circulação e outras políticas públicas, continuam sendo objeto de debates e revisões. Questionar decisões governamentais faz parte de uma sociedade democrática.
Entretanto, não é verdadeiro afirmar que as vacinas “não funcionaram”. As melhores evidências científicas disponíveis continuam indicando que elas reduziram significativamente o risco de hospitalizações e mortes, sobretudo entre idosos e pessoas mais vulneráveis.
Da mesma forma, não há evidências robustas de que a ivermectina tenha demonstrado eficácia consistente no tratamento ou na prevenção da Covid-19. Embora estudos iniciais tenham despertado esperança e alguns profissionais tenham defendido seu uso, pesquisas clínicas maiores e metodologicamente mais confiáveis não confirmaram esse benefício.
Dizer que pessoas se recuperaram após tomar ivermectina é um fato. Concluir, porém, que elas se recuperaram por causa do medicamento é outra questão. Em medicina, coincidência não é prova de causa.
Da mesma forma, afirmar que qualquer político “estava totalmente certo” ou “totalmente errado” simplifica um dos períodos mais complexos da história recente. Houve acertos, erros, exageros, decisões acertadas e outras que hoje são amplamente questionadas. A história costuma ser mais complexa do que os vídeos de um minuto publicados nas redes sociais.
A maior lição da pandemia talvez não seja escolher um lado, mas preservar o compromisso com a verdade. Em tempos de algoritmos que premiam o sensacionalismo, desconfiar de afirmações absolutas continua sendo um dos melhores exercícios de cidadania.
A verdade não pertence à direita nem à esquerda. Ela pertence aos fatos.