A expressão pode ter significados diversos, mas o centro mesmo é Deus, o Senhor da história e da existência de cada ser, seja ele humano, animal ou vegetal. Para o ser humano, habilitado para os relacionamentos e convivência, é fundamental o testemunho de fé, esperança e caridade, aquilo que entrelaça o humano com o divino e possibilita a prática da caridade, do amor e da fraternidade.
Algumas situações históricas podem desviar nossa atenção do centro, daquilo que é mais importante para a vida de todos. Para o antigo povo judeu, o templo de Jerusalém era local de convergência, porque foi o seu principal centro religioso, era lugar sagrado e refletia a presença de Javé. Em Deus construímos uma história de esperança, que culmina com o clima de realização pessoal e comunitária.
O cenário, que envolve o Exílio da Babilônia (cf. Jr 29,4), desarticulou totalmente os israelitas, porque perderam seu centro de unidade e de vida. Não é diferente daquilo que está acontecendo na cultura moderna, totalmente manipulada pela Inteligência Artificial e pelas novas tecnologias. Nessa realidade, o centro da vida não é mais Deus, é a pessoa, às vezes descaracterizada na sua identidade.
Nesse contexto de mundo, não significa que Deus, o centro da vida em todos os tempos, tenha se distanciado do cotidiano do ser humano e da história dos povos. Os registros contidos e encontrados nas Sagradas Escrituras revelam e mostram a constante presença divina, mesmo nos momentos que marcam a vulnerabilidade das culturas, de afastamento da fé e perda da esperança.
A presença de Deus na existência humana acontece por uma autêntica experiência de fé, pela força da caridade e firmeza na esperança. São virtudes que sintetizam o estilo de vida de quem teme a Deus e procura fazer dele o centro de sua vida. Aquilo que chamamos de estilo de vida não pode ser pautado pela incoerência, hipocrisia e prática contumaz de desonestidade.
Numa história globalizada, virtual, as pessoas não podem perder o seu chão, a vida concreta, que o papa Francisco chama de localização. O centro da vida não está nas nuvens, na superficialidade e no descompromisso, como se fosse uma “fuga do mundo”. Para o cristão, a vida tem uma transcendência, confirmada pela presença constante de Deus como o centro de toda atividade da história.
Dom Paulo Mendes PeixotoArcebispo de Uberaba.