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O escândalo político do detergente

Euseli dos Santos
Publicado em 22/05/2026 às 17:51
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Em tempos de mi-mi-mi, fake news, redes sociais supervalorizadas e extremismo político, até detergente vira instrumento de disputa política. Isso mesmo, detergente.

Afinal, o que um produto de limpeza tem a ver com discussão política?

Tudo começou com o anúncio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a contaminação biológica de um lote de lava-louças e lava-roupas da Ypê. A notícia caiu como uma bomba sobre a reputação da marca e gerou grande alarde, já que envolvia a possível presença de agentes capazes de causar problemas de saúde.

E não é para menos. A Ypê é líder absoluta de vendas há anos. Imagine quantos milhões de lares utilizam diariamente seus produtos? Trata-se, sim, de uma questão de saúde pública, pois muitas famílias poderiam sofrer consequências caso houvesse risco sanitário real.

O problema, porém, deixou de ser a denúncia em si e passou a ser alvo de disputa política. O episódio foi rapidamente apropriado por grupos de oposição, que passaram a criar narrativas de perseguição, alegando retaliação contra apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O argumento usado era que empresários ligados à marca teriam doado cerca de R$1,5 milhão nas eleições anteriores em apoio ao então candidato.

A partir daí, começaram a circular alegações sem comprovação, transformando uma denúncia sanitária em um grande espetáculo de ataques da oposição. Diversas personalidades e influenciadores saíram em defesa da acusada. Houve até quem afirmasse tomar banho com detergente como prova de apoio. A ex-primeira-dama, também, manifestou apoio à marca, mostrando uma foto da embalagem do produto em suas redes sociais.

Ainda há aqueles que aproveitaram para “surfar na onda”, onde um vídeo viralizou mostrando um homem bebendo detergente como “prova” de confiança. Depois, ele afirmou que era apenas uma brincadeira entre amigos e que o frasco continha iogurte de coco. Brincadeira ou não, a encenação é um ato irresponsável que pode induzir outras pessoas (inclusive crianças) a ingerir um produto de uso exclusivo para limpeza.

O mais preocupante é perceber como tudo se transforma em performance. Parece que não há limites para aparecer. Vale tudo para ganhar visibilidade, engajamento ou alguns minutos de fama. E mesmo uma denúncia séria de um órgão regulador acaba sendo usada como palco para oportunistas e opositores, todos com a única motivação: tirar o foco do essencial (uma investigação sanitária) para virar um grande espetáculo circense, no sentido pejorativo da palavra.

Inclusive, o acontecimento recente é bem semelhante ao escândalo que envolveu a campanha publicitária da marca Havaianas protagonizada pela atriz Fernanda Torres. O caso foi ainda pior, pois uma fala banal do roteiro foi interpretada como provocação política. Na época, foi um burburinho sem fim, causado pelo mesmo grupo de baderneiros. Esse pessoal parece estar sempre à caça de qualquer deslize ou lacuna para utilizar como munição de ataque aos opositores.

Afinal, quando não se tem qualidades e bons argumentos, a equipe adversária precisa criar estratégias para enfraquecer o opositor e, dessa forma, ganhar votos de confiança dos desavisados. Quantos líderes não subiram ao poder manipulando as pessoas desse mesmo jeitinho? Na história da humanidade está cheio de exemplos.

O mais agravante é que, no final, o debate sério desaparece. A denúncia sobre a possível presença de bactérias tóxicas, que deveria acender alerta sobre saúde pública, perdeu espaço para teorias e narrativas sem pé nem cabeça, e muito blá- blá-blá.

Como isso cansa… ufa. Bateu até saudades dos tempos em que política era só política, em que detergente era só um produto de limpeza. Era cada um no seu quadrado. Era tão mais fácil.

 Euseli dos Santos

Advogado em Uberaba/MG – OAB/MG 64.700, especialista em Direito do Trabalho; mestre em Direito pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp); conselheiro estadual titular da OAB/MG triênio 2022-2024; palestrante; autor de obras jurídicas.

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