Orelha vivia livre pelas ruas da cidade de Florianópolis. Era figura conhecida dos frequentadores e residentes da região da Praia Brava. Há anos havia sido adotado pela comunidade local. Recebia afeto, comida e cuidados veterinários dos moradores.
Não pertencia a nenhum tutor. Era uma alma livre, querido por muitos. Tornou-se um dos cães mascotes da região. Dócil e brincalhão, era atração inclusive para turistas. Habitava uma das casinhas destinadas aos animais comunitários e fazia parte da comunidade havia cerca de dez anos. Levou uma vida boa durante esse tempo, até ser brutalmente agredido no último mês de janeiro. Não resistiu aos ferimentos e morreu. O crime foi cometido por um adolescente de classe média alta e assistido por outros três jovens.
O caso revela o crescimento de atos de violência cometidos por jovens sem motivo aparente, muitas vezes por pura crueldade. Também reforça o debate sobre a negligência de familiares e a toxicidade de certos conteúdos divulgados nas mídias digitais, que propagam a violência sem pudor. A enxurrada de conteúdos que banalizam a agressividade pode produzir um perigoso processo de dessensibilização diante da violência — tema, inclusive, abordado em muitas produções audiovisuais da atualidade.
Infelizmente, o que aconteceu com Orelha é apenas mais um episódio em estatísticas cada vez mais preocupantes. No ano passado, por exemplo, um adolescente incendiou um morador de rua no Rio de Janeiro por pura maldade e diversão. Independentemente da nomenclatura que esses jovens utilizam para justificar tais atos, tragédias assim parecem ocorrer com frequência crescente.
Diante de tanto horror e indignação surgem os seguintes questionamentos: o que está acontecendo dentro de muitas casas? Os pais estão cumprindo seus papéis de formadores de cidadãos conscientes e responsáveis? Em alguns casos, a ausência de amor e de educação dos progenitores é comprada com presentes caros e pagamento de mensalidades em escolas elitistas. Em vez de orientação e limites, muitos jovens recebem somente bens materiais. Tornou-se rotineiro ver crianças e adolescentes consumindo conteúdos muitas vezes tóxicos, que alimentam rivalidade, ostentação, ódio e desprezo por outros seres vivos.
O episódio expôs o sentimento de impunidade presente em determinados segmentos sociais. Após o ocorrido, dois dos jovens envolvidos viajaram para os Estados Unidos, o que muitos interpretaram como desprezo pelas regras sociais, éticas e de responsabilidade moral.
Isso reforça a percepção, presente em parte da sociedade, de que uma parcela da elite brasileira frequentemente protege seus filhos das consequências de seus atos. Além de negligenciar o papel educativo, alguns ainda se utilizam de recursos financeiros para poupá-los de problemas com a Justiça. O saudoso Cazuza cantou algo do gênero nos versos “a burguesia fede”. A frase, provocativa, ecoa como crítica a uma sociedade que muitas vezes coloca o privilégio financeiro acima de valores relacionados ao caráter.
Orelha uniu a sociedade em torno de um sentimento comum: indignação diante da crueldade e da fragilidade das leis de proteção animal. Seu caso também expôs a necessidade urgente de maior consciência ética, respeito à vida e responsabilização efetiva.
Talvez esse episódio não tenha as consequências que muitos desejam. Provavelmente, o adolescente acusado vai continuar desfrutando de uma vida confortável como se nada tivesse acontecido. Ainda assim, a morte de Orelha não deve ser esquecida. Que sua partida, tão injusta, ao menos sirva para despertar consciências e salvar outros animais de violências semelhantes.
Sua doçura e seu afeto irradiaram tanto amor que conseguiram unir pessoas de diferentes lugares e histórias. Sua morte não foi em vão.
Eu e minha família, que amamos os peludos de quatro patas, pedimos sinceras desculpas ao Orelha. Descanse em paz. Você cumpriu seu papel espalhando amor e união por onde passou.
Somos nós, humanos, que ainda não aprendemos a compreender esse amor.
Euseli dos Santos
Advogado em Uberaba/MG – OAB/MG 64.700, especialista em Direito do Trabalho;
Mestre em Direito pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp); conselheiro estadual titular da OAB/MG triênio 2022-2024; palestrante; autor de obras jurídicas