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Ayvu: quando a palavra é também amor (intraduzível #11)

Frederico Oliveira
Publicado em 02/12/2025 às 17:39
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Nas línguas guarani, ayvu significa “palavra”. Mas não apenas palavra: significa também “alma”, “voz”, “sopro”, “amor”. Para esse povo, falar não é articular sons; é entregar algo vivo. O que se diz carrega o espírito de quem diz. Uma palavra, portanto, nunca é só palavra, é gesto, vínculo, presença. Ayvu é o intraduzível dessa ligação entre dizer e amar.

Na visão guarani, o mundo foi criado por meio da palavra. Não por força física ou por ato violento, mas por um canto. A linguagem, aqui, não nasce da necessidade: nasce da ternura do encontro entre voz e matéria. A palavra funda. E, por isso mesmo, exige responsabilidade. Dizer é pôr algo no mundo; amar é cuidar do que se põe. Ayvu junta esses dois movimentos num único sopro.

No cotidiano, essa perspectiva parece distante de nós. Nossa cultura separou o que se fala do que se sente. Transformou a linguagem em ferramenta, estratégia, instrumento. Explicamos, narramos, descrevemos, mas raramente lembramos que falar também toca. Que cada frase deixa marcas, invisíveis como o vento, mas precisas como cicatriz.

Ayvu devolve à palavra sua condição de corpo. O afeto vibra nela, como num cordão vivo. A palavra não é exterior ao amor: é seu modo de se fazer audível. Quando alguém diz “estou aqui”, o que chega não são apenas sons, mas um abrigo. Quando alguém diz “fica”, o que se oferece não é ordem, mas cuidado. O amor, no fundo, sempre esteve escondido na língua, mas o guarani o nomeia sem pudor.

O intraduzível dessa palavra não é obstáculo semântico. É desvio ético. Ayvu subverte a compreensão moderna de que amor é sentimento íntimo e palavra é expressão externa. Para os guarani, o amor está no modo como a palavra cria relação; está no ritmo da fala, na escuta que a sustenta, no silêncio que a acolhe.

E isso revela, com clareza, a ferida do nosso tempo: falamos demais e amamos pouco. Produzimos discursos que não encarnam quem somos. Multiplicamos mensagens, comentários, ruídos, mas a maior parte disso não toca nada. Não cria mundo. Não cria vínculo. Falta-lhe ayvu.

Há algo de urgentemente contemporâneo nessa palavra. Em uma era de comunicação incessante, ela nos lembra de que falar não é preencher espaços, mas habitá-los. Não é convencer, mas convidar. Não é expor, mas oferecer. Ayvu é a insistência de que cada palavra deve carregar o peso, e a delicadeza, de quem a envia.

Diante disso, fica claro o desafio: reaprender a dizer como quem cuida.
Diminuir o volume para aumentar a presença.
Transformar a língua em abrigo, não em arma.

No final, ayvu é menos uma definição e mais uma convocação: usar a palavra como gesto de amor. Não amor romântico, mas amor como atenção, como escuta, como reconhecimento. O tipo de amor que atravessa sem possuir, que nomeia sem aprisionar, que sustenta sem exigir retorno.

Quando uma palavra nasce desse lugar, ela permanece.
E é assim que o mundo, de novo, pode ser criado.

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