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Hózhó: a beleza que sustenta o mundo (intraduzível #12)

Frederico Oliveira
Publicado em 09/12/2025 às 18:11
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Entre o povo navajo, hózhó é uma das palavras centrais para se compreender a vida e, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis de traduzir. Não significa apenas “beleza”. Também significa harmonia, equilíbrio, santidade, retidão, caminho bom, respiração alinhada com o mundo. Hózhó é um estado, mas também um verbo; um horizonte e uma prática. É a arte de viver de maneira íntegra.

O intraduzível não está na amplitude do termo, mas no fato de que ele não admite separações. Para os navajo, beleza não é atributo estético. É condição ontológica. É aquilo que emerge quando o corpo, a terra, a palavra e o tempo vibram no mesmo ritmo. Um modo de caminhar que não é grandioso nem espetacular, é simples, mas exigente.

No cotidiano navajo, andar em hózhó é alinhar-se com o que vive. O passo, o gesto, a intenção, tudo importa. Não há gesto neutro nem palavra sem corpo. O caminho bom se faz na prática diária, nos pequenos ajustes, na vigilância do espírito. Hózhó é aquilo que se constrói a cada amanhecer, quando o sol toca a linha das montanhas e lembra que a vida precisa de manutenção.

Essa noção desafia a lógica contemporânea, em que beleza se tornou imagem, consumo, performance. A estética do agora é superficial, ansiosa e competitiva. Tudo que reluz precisa ser exibido. Tudo que se sente deve ser narrado. Hózhó, ao contrário, é silêncio. É profundidade. É a beleza que não precisa ser vista para existir.

E existe um aspecto ético nessa beleza. Estar em hózhó exige responsabilidade: com o próprio corpo, com o corpo do outro, com o território, com o mundo invisível que sustenta o visível. É uma ética que não se faz de leis, mas de ritmo. Como se a existência fosse uma canção que pode desafinar e que precisa ser afinada de tempos em tempos.

No fundo, hózhó é uma esperança que caminha de pés no chão. Não promete salvação, não promete equilíbrio eterno. Ela sabe da precariedade da vida, da instabilidade, das fraturas que se acumulam. Hózhó não é ausência de conflito; é a maneira de atravessá-lo sem se perder. A beleza aqui não oculta a dor, convive com ela, e às vezes nasce dela.

Para os navajo, viver sem hózhó é deixar que o espírito se desalinhe. E quando o espírito se desalinha, tudo ao redor se distorce. As relações se contaminam, a visão turva, o corpo pesa. A vida perde sua música.

Recuperar hózhó é, portanto, recuperar a música. A cadência justa. A beleza que retorna ao corpo quando ele encontra seu próprio ritmo.

E essa é talvez a maior lição desse intraduzível: a beleza que sustenta o mundo não está nas formas, mas nas relações. Não está no que se exibe, mas no que se cuida. É a beleza como modo de estar, e de permanecer, no mundo.

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