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Mudita: a alegria que nos retira do centro (intraduzível #13)

Frederico Oliveira
Publicado em 17/12/2025 às 18:21
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Em páli e sânscrito, mudita nomeia a alegria sentida pela alegria do outro. Não se trata de empatia nem de generosidade moral. É uma alegria que não nasce do mérito próprio, mas da capacidade de vibrar com a vida alheia quando ela floresce. Uma alegria que não compara, não mede, não disputa. O intraduzível de mudita está nesse deslocamento: alegrar-se sem apropriar, celebrar sem possuir.

No mundo de hoje, mudita soa quase como um gesto improvável. Vivemos sob a lógica da performance contínua, em que cada sucesso do outro ameaça o nosso, em que a vida se organiza como vitrine e o afeto se torna cálculo. Nesse cenário, alegrar-se genuinamente pelo bem do outro não é ingenuidade, é subversão. É uma forma silenciosa de resistência ao regime da comparação permanente.

Ter amigos, fazer amigos, manter amigos: isso também se tornou um gesto raro. Não por falta de encontros, mas por falta de tempo não produtivo. A amizade exige uma economia própria, uma economia que não rende, não acelera, não produz resultados visíveis. Mudita habita exatamente esse território: o do ganho que não se contabiliza. A alegria de ver o outro bem, simplesmente porque ele nos faz bem. E, mais ainda, porque seu bem amplia o mundo.

Há algo de profundamente humano nisso. A continuidade da humanidade talvez não dependa apenas de grandes gestos históricos, mas dessa persistência afetiva que se constrói no cotidiano: compreender as vulnerabilidades do outro, aceitar suas falhas, sustentar o vínculo mesmo quando ele não oferece espetáculo algum.

Amigar-se do outro é também um modo de se descentralizar. Em tempos em que o eu se tornou projeto, marca, desempenho, a amizade funciona como alívio ontológico. O amigo suspende o tribunal interno, que só sabe cobrar resultados. Diante dele, não é preciso performar. Pode-se falhar, contar histórias mal acabadas, repetir memórias, rir do que não deu certo. Mudita é essa alegria que nasce quando o tempo deixa de ser linha e se torna roda, a roda da conversa que gira sem finalidade.

Há uma política implícita nessa suspensão. Enquanto o mundo exige produtividade, a amizade insiste na prosa. Relatar experiências, compartilhar vivências, nomear aprendizados sem convertê-los em lições universais, tudo isso cria um outro ritmo de existência. Mudita não acelera; ela acompanha. Não exige; ela escuta.

O intraduzível dessa palavra não está apenas no sentimento, mas na forma de relação que ela sustenta. Alegrar-se pelo outro é reconhecer que a vida não é jogo de soma zero. Que o bem que acontece fora de nós não diminui o que somos, amplia. Mudita desmonta a ficção da autossuficiência e nos reinscreve no campo das relações vivas.

Em um mundo cansado de si mesmo, essa alegria compartilhada é uma forma de descanso. Não descanso do corpo, mas do ego. Um repouso breve e precioso: aquele em que deixamos de ser centro e passamos a ser companhia.

Mudita é isso: a alegria que nos desloca, nos alivia e nos mantém humanos. Não porque promete felicidade, mas porque sustenta a continuidade do vínculo.

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