ARTICULISTAS

O mundo não é árvore: é rizoma

Frederico Oliveira
Publicado em 28/08/2025 às 18:23
Compartilhar

Somos treinados a pensar a vida como se fosse uma árvore. Uma raiz que sustenta, um tronco que organiza, galhos que se abrem em ordem e direção. Essa imagem nos dá segurança: cada coisa tem um começo, um meio e um fim; cada parte se conecta a um todo central. O problema é que o mundo raramente se comporta assim.

Gilles Deleuze e Félix Guattari sugeriram outra imagem para pensar: o rizoma. Em vez de um tronco vertical, o rizoma é feito de ramificações subterrâneas, múltiplas, que se conectam em diferentes pontos, sem hierarquia. Não há início nem fim, apenas um meio que se espalha. O rizoma não explica o mundo, mas o descreve com mais fidelidade: um tecido de relações, atravessado por bifurcações e encontros inesperados.

Se a árvore é a figura da ordem e da identidade, o rizoma é a figura da multiplicidade. Nele, não existe um centro que controla, mas linhas que se cruzam, se desviam, se perdem e reaparecem. Pensar rizomaticamente é aceitar que a vida se organiza menos por planos fixos e mais por conexões provisórias.

Winnicott, de outro modo, também nos convida a desconfiar das formas rígidas. Para ele, a criatividade humana não nasce de uma estrutura imutável, mas de um espaço transicional: aquela zona entre o interno e o externo em que o brincar se torna possível. O brincar é rizomático, porque não precisa obedecer a regras prévias. Uma criança pode transformar uma caixa em casa, um lençol em mar, um galho em espada. O sentido emerge no entre, não no centro.

O mundo, se o pensarmos como rizoma, ganha uma liberdade semelhante. A rua se conecta à memória, o gesto à palavra, um encontro banal à possibilidade de transformação. Nada é garantido, mas tudo pode se ligar. O que importa não é a estabilidade do tronco, mas a vitalidade dos movimentos.

O risco é que insistimos em viver como árvores. Buscamos raízes que nos fixem, troncos que nos deem solidez, galhos que se estendam de modo previsível. Fazemos planos, montamos estruturas, exigimos coerência. Mas basta um tropeço, um imprevisto, um encontro diferente, e a árvore se desorganiza. É nesse instante que o rizoma se revela: quando a vida insiste em se conectar por baixo, mesmo quando não pedimos.

Pensar em rizoma não significa negar as raízes, mas reconhecer que elas não são o único modo de vida. Somos atravessados por múltiplas linhas e é nesse emaranhado que se joga a possibilidade de criação. No brincar de uma criança, na improvisação de uma conversa, na invenção de um gesto cotidiano, a vida se mostra menos como árvore e mais como rizoma.

O mundo não precisa de um centro para existir. Ele precisa de conexões. E nós também.

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2025Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por