A celebridade de Platão (428-347 A.C.) e a importância e significado de sua obra para o mundo geralmente obnubilam entendimento e análise, subordinando-os a inaceitável subserviência intelectual.
Necessário, pois, que o estudioso, o comentador e divulgador de sua obra, como, de resto, de qualquer autor, posicione-se autonomamente, sem nenhum viés de subalternidade, mesmo porque, se não se é independente, não se é intelectual e vice-versa.
De plano, verifica-se que a estruturação dialogal da obra de Platão prejudica a objetividade ensaística e dificulta seu acesso e abordagem, dados seus vais e vens e zigue-zagues.
Por exemplo, quando interlocutor indaga “o que é a mimese?” (A República, Livro X), a resposta vem embrulhada e embaralhada em seguidas afirmações e definições destituídas do necessário rigor formulativo e da síntese objetiva requerida, o que a estrutura dialogal não permite.
Dispensável também atribuir ao interlocutor central de A República o nome de “Sócrates”, o que levou e leva ainda ao engano de se considerar que as ideias expendidas por Platão nesse livro sejam de Sócrates (470-399 A.C.), quando, na realidade, são única e exclusivamente do próprio Platão, que, por isso, poderia – e, principalmente, deveria – ter dado outro nome à personagem.
A confusão daí derivada é tão grande que até pensador do porte de Alain afirma que “ainda agora, através de Platão, é para Sócrates que olhamos” (Ideias. São Paulo/SP, editora Martins Fontes, 1993, p. 11), sem atentar que Sócrates não deixou obra escrita e que seria impossível a Platão (ou a qualquer outro, inclusive Xenofonte), memorizar palavra por palavra e ideia por ideia o que o Sócrates real teria dito. Além do mais, se o “Sócrates” dialogador seria o real, reais também seriam os demais interlocutores? Por fim, sem atentar que os assuntos e argumentos defluídos dos diálogos encadeiam-se uns aos outros conforme sua lógica e natural decorrência, ou seja, surgem e se concretizam na dinâmica de sua presente elaboração e não do afirmado antanho por terceiro, alheio às controvérsias suscitadas e desenvolvidas.
Posto isto como proêmio, mesmo que dispensável, tal a obviedade axiomática da proposição, Platão, em A República, exclui os poetas da governança da cidade e expende diversas considerações sobre poesia, mimesis e Homero.
No que tange à participação dos poetas na administração pública, os verdadeiramente artistas é que a repelem, não propriamente por incompatibilidade pessoal, mas por impossibilidade de eficaz atuação simultânea nessas atividades.
Nesse sentido, reporte-se à ponderação da secretária do governador, personagens do filme Terra em Transe (Brasil, 1967), de Glauber Rocha, de que “um homem não pode se dividir assim. A política e a poesia são demais para um só homem”.
No que se refere à mimesis (imitação) e a Homero, as opiniões platônicas a respeito não constituem objetos deste artigo, visto que tanto umas quanto outras se empalidecem diante de seu entendimento e conceituação da poesia e do fazer poético por atingir simultaneamente a essência e a prática poéticas, daí derivando sua importância e, tanto, que sempre são recorrentes e reiteradas em cada geração por posicionamentos ideológicos engajados nas lutas pela transformação da sociedade.
Platão afirma no tópico, com a segurança e convicções habituais, que a poesia deve ser “não só agradável como também útil” (op. cit., Livro X), consoante a edição da Martin Claret (São Paulo/SP, 2007, p. 307), em tradução de Pietro Nassetti.
A intemporalidade dessa assertiva impede se tentar minimizá-la e justificá-la sob o pretexto de condicionantes de época, lugar, etc.
A circunstância de sua recorrência e reiterada aceitação por questões de preceituações político-sociais-ideológicas demonstra que ela não é decorrência de limitações e condições temporais, visto permanentemente pessoas politicamente engajadas pretender a subordinação da poesia e da arte em geral a finalidades estranhas à sua natureza e destinação.
A preocupação platônica insere-se, pois, num contexto utilitário-subordinativo que, até mesmo pela sua posição e influência, permeia e direciona recorrentemente esse equivocado entendimento.
A finalidade da poesia (e da arte em geral) não é ser útil, mas, como reconhece Platão, ser agradável, porém, no sentido de produzir prazer estético, noção nele ainda embrionária, secundarizada face à pretensa utilidade.
Em reforço a seu entendimento, o filósofo grego ainda exige, em seguida, que a poesia deva se justificar e que “não devemos preocupar-nos com esta poesia, como detentora da verdade, e como coisa séria”, aprofundando mais ainda, nesse passo, seu equívoco e visão distorcida da natureza substantiva da poesia (e da arte em geral), cuja função e finalidade é de produzir beleza estética.
Conquanto não a explicite, sua compreensão da utilidade da poesia pressupõe que seja para conter a verdade e ser “séria”.
Contudo, a poesia não tem de justificar coisa alguma e, muito menos, ser detentora da verdade, seja lá o que ela for ou se pretenda que seja, mesmo porque a verdade reside na realidade como disse um pensador: “a verdade não está em nossas cabeças, mas na realidade”.
Platão, no entanto, elege a ideia como parâmetro da verdade, a ponto de Alain (op. cit., p. 42), ecoando-o, afirmar: “as coisas, sem as ideias, são tão impossíveis quanto as sombras sem as coisas das quais são sombras”, quando se sabe que as ideias derivam das coisas, e não o contrário, cada coisa provocando ideia a seu respeito, modo, conformação e finalidade.
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Em suma, a poesia (e cada arte à sua maneira) tem apenas como finalidade produzir arte e proporcionar prazer estético, fundamentado em contenção verbal, rigor, elaboração da linguagem e/ou pesquisa, experimentação e criação de novas linguagens com base na palavra, vez que, como indica Mallarmé, “poesia se faz com palavras e não com ideias”, manifestando-se a poeticidade “no fato de a palavra ser apercebida como palavra, e não como simples substituto do objeto nomeado ou como explosão de emoção”, como ensina Jakobson.