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A defesa de Sócrates

Guido Bilharinho
Publicado em 03/08/2026 às 19:17
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O livro Apologia de Sócrates (elaborado após 399 a.C.), de Platão (428-348 a.C.), contém não o elogio de Sócrates, como o título também pode induzir, mas sua defesa no processo que Atenas lhe moveu. E não é de Platão.

Ocorre que Platão assistiu ao julgamento de Sócrates e, de conformidade com o que reteve na memória, e/ou anotou da defesa por ele procedida, compôs o livro, que não tem uma palavra sua.

Como se sabe, Sócrates foi acusado, e ele próprio lembra, de “corromper a juventude e em não acreditar nos deuses em que a cidade acredita, e sim em divindades estrangeiras” (São Paulo/SP, Hunter Books Editora, 2024, Cap. 11, p. 33), em tradução de Alexandre Romero.

Sócrates pode ter tido vasta sabedoria e até é considerado grande filósofo, conquanto, a teor dos diálogos que entreteve com vários jovens, publicados por Xenofonte, não passe de autor de autoajuda, de conselheiro da juventude, conforme demonstrado no artigo “Sócrates, Autor de Autoajuda?”.

Aliás, ele mesmo o diz, consoante Platão, que “essa tarefa, como digo, foi-me intimada pela divindade, pelos oráculos, pelos sonhos e por todo tipo de meio pelo qual as divindades intimam os homens” (Cap. 22, p. 48/49).

Ora, quem afirma isto, quem acredita nisso, nunca poderia ser filósofo ou mesmo sábio.

Nenhuma divindade o intimou a fazer o que fez ou outra coisa qualquer. Tal ocorrência só existe e persiste na mitologia, no imaginário religioso, nunca na realidade.

Nela, na realidade, e não na suposição, Sócrates foi vocacionado a falar, a expor ideias e pensamentos e, de conformidade com essa aptidão natural e congênita, passou a discursar e a dialogar, expondo opiniões e conselhos de cunho comportamental.

É certo que Aristóteles na Metafísica afirma que “duas descobertas podem, com justiça, ser atribuídas a Sócrates: o raciocínio indutivo e a definição universal. Ambos estão associados ao ponto de partida da ciência” (apud Moisés do Vale dos Santos. A Filosofia de Sócrates. Rio de Janeiro, Barra Livros, 2014, p. 23).

Não obstante essa considerável informação de Aristóteles, não se encontram nas únicas falas cuja autoria lhe são atribuídas (o livro de Xenofonte e sua defesa) tais “descobertas”, que, portanto, seriam suas únicas contribuições para a filosofia, e, ainda, restritas, como o próprio Aristóteles indica em outra parte do texto citado, “às virtudes morais”.

A imensa consideração que Sócrates suscita, advinda principalmente de indicação de Aristóteles, de sua pureza de propósitos e entranhado desprendimento, esbarra em importante obstáculo: nada deixou escrito e as únicas obras a ele creditadas, consistentes na defesa ora comentada e nos diálogos expostos por Xenofonte, nada têm de filosofia.

Os referidos diálogos não passam de conselhos do tipo de autoajuda, de natureza unicamente comportamental.

Já a referida defesa, objeto do livro de Platão, é pífia, desordenada e amadorística, carecendo até mesmo de ordenamento lógico-racional, o que compromete e lança forte dúvida de que seu autor tenha possibilidade de atingir as pretendidas culminâncias filosóficas.

Nela, nessa alegada apologia ou defesa, não existe e nem se desenvolve raciocínio defensivo que afronte e impugne a acusação, por sinal, genérica e vaga, perdendo-se Sócrates numa vacuidade palavrosa e repetitiva, totalmente estranha à técnica defensiva, como seria procedida por profissional especializado, omitindo-se até mesmo de concitar a apresentação probatória, ônus da acusação.

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