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A Traição dos Intelectuais

Guido Bilharinho
Publicado em 05/11/2026 às 19:49
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Em geral considera-se justo, útil e necessário ter-se ideologia, guiando-se por sistema orgânico de princípios e percepções da vida, do mundo e sua problemática.

Toda pessoa ideologizada assim pensa e age de conformidade.

Mas será isso o certo, o correto?

À evidência, que não.

A ideologia, qualquer que seja, limita a compreensão do mundo, determinando visão unilateral, parcial e subjetiva da realidade, resultando em equívocos e enganos.

Ao invés de procurar e pesquisar na realidade a verdade em cada caso concreto, o ideologizado a submete e constrita a aquilo que pensa e entende.

Por isso, e nesse sentido, o pensador britânico David Ricardo advertiu que “a verdade não está em nossa cabeça, mas na realidade”.

O indivíduo dominado por ideologia considera exatamente isso: que a verdade está no que ele pensa e julga, desconsiderando a realidade, que é onde existe a verdade.

E isso é grave porque leva o indivíduo a agir unilateral e negativamente, visto pretender e forcejar por impor à realidade o que pensa ser o correto, o verdadeiro.

Mas o que é a verdade?

Santo Agostinho, citado por Santo Tomás de Aquino em Questões Discutidas Sobre a Verdade (coleção “Os Pensadores”, Abril Cultural, 1979, p. 21), afirma que “o verdadeiro é aquilo que é”.

Mas, ao contrário do que pensa Santo Tomás, que considera que “aquilo que é, outra coisa não é senão o ente”, aquilo que é outra coisa não é senão a realidade, conforme visualizada por Ricardo.

Aquilo que é está na realidade e não fora dela como, nesse passo, induz Santo Tomás.

Contudo, em outra passagem, Tomás de Aquino pondera que “o verdadeiro se encontra antes fora da inteligência, ou seja, nas próprias coisas”.

As transgressões, os erros e os enganos que a ideologia provoca são tão graves e perniciosos que o ensaísta francês Julien Benda (1867-1956) os considera uma traição dos intelectuais, título, aliás, de seu célebre livro A Traição dos Intelectuais (La Trahison des Clercs. São Paulo/SP, Peixoto Neto editor, 2007), publicado originariamente em 1927.

Entre miríades de considerações e exemplos dessa traição, Benda invoca que “Treitschke [historiador e político alemão] e seus homólogos franceses não são historiadores; são homens políticos que se servem da História para fortalecer uma causa que querem ver triunfar” (p. 164).

De igual modo refere-se aos críticos de arte, afirmando que “são hoje numerosos os que querem que uma obra seja bela apenas na medida em que serve a um partido [...] ou que se integra a um sistema político” (p. 165).

No que tange a filósofos, exemplifica “que Fichte e Hegel apresentam como fim supremo e necessário do desenvolvimento do Ser o triunfo do mundo germânico” (p. 166).

A que distorções e falsidades a ideologia leva!

Contudo, onde Benda atinge mais precisão e consistência não é propriamente no citado ensaio, mas no prefácio que lhe fez para a edição francesa de 1946.

Nele, Benda aduz que o posicionamento e a função do intelectual deve ser a procura e a defesa da Justiça, da Verdade e da Razão e que o único sistema político que o intelectual pode adotar, permanecendo fiel a si mesmo, é a democracia ou, como propôs o dramaturgo britânico Bernard Shaw, o sistema que contempla planejamento, igualdade de oportunidades e liberdade.

Enfim, para Benda os valores intelectuais são a Justiça, a Verdade e a Razão escoimados de todo viés e tentativa de os tolher por limitações de sentido prático, ou seja, interessado, direcionado.

Aliás, do mesmo modo que Agostinho e Ricardo, conclui Benda que “uma afirmação é dita verdadeira porque ela se mostra conforme à realidade” (p. 106).

Entender isso, em todas suas implicações, exige, no entanto, reflexão baseada em estudo e conhecimento, mas, em geral, como diz o cineasta francês Cédric Kahn, “as pessoas não querem saber, querem acreditar”.

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