ARTICULISTAS

A Utopia (I)

Guido Bilharinho
Publicado em 17/09/2026 às 19:49
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O livro A Utopia (1516), de Thomas Morus ou More (1478-1535), geralmente é tido e havido por quem não o leu ou o leu mal como o suprassumo da pretensão de organização social perfeita, a ponto de a sociedade que descreve se tornar universalmente sinônimo de sociedade ideal, de completa harmonia e felicidade, tornando-se... utópica.
Não é assim, porém.
Na realidade, a idealizada ilha da Utopia – com suas cidades, famílias, dirigentes, posições, disposições, condições e, principalmente, imposições – é profundamente totalitária, uniforme e tediosa.
A começar pela origem da organização ilhota por Utopus e dos “milhares de braços” que foram obrigados a se pôr “em movimento” para a construção de suas 54 (cinquenta e quatro) cidades “edificadas sobre o mesmo plano”, possuindo “os mesmos estabelecimentos e edifícios públicos” (p. 214, da edição de 1979 da coleção “Os Pensadores” da Abril Cultural), o que remete à reconstrução nazista da Alemanha nos primeiros anos de seu poder, já que os anos restantes de seu curto período histórico foram destinados a atacar e submeter os países vizinhos (Áustria, Polônia, Checoslováquia, França, Bélgica, Holanda) e tentar conquistar e dominar outros mais distantes (União Soviética e Grã-Bretanha).
A organização da ilha da Utopia não parou, porém, nesses prolegômenos. Ao contrário. Avançou em e sobre todos os aspectos da administração, do contexto comunitário e da vida individual e familiar de seus habitantes.
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Assim, anualmente, “três velhos experientes e capazes” eram “nomeados (sic) deputados por cada (sic) cidade” (p. 214), congregando-se na capital, Amaurota. 
A produção de artigos de consumo tinha área determinada, recebendo os “exércitos de trabalhadores que a cidade envia periodicamente ao campo” (p. 215).
Por sua vez, “a família agrícola” era composta “pelo menos de quarenta indivíduos, homens e mulheres, e de dois escravos (sic)”, estando “sob a direção de um pai e de uma mãe de família, pessoas graves e prudentes” (p. 215), sendo a reunião de 30 (trinta) famílias dirigidas por um filarca.
Na Utopia nada era e nem podia ser espontâneo e nem decorrências de iniciativa pessoal e mesmo social, sendo que “todos os anos vinte cultivadores de cada família” regressavam à cidade após terminados “seus dois anos de serviço agrícola”, sendo substituídos por outros “vinte indivíduos que ainda” não tinham prestado esses serviços (p. 215).
Até mesmo para se conseguir maior quantidade de pintos não deixavam “às galinhas a tarefa de chocar os ovos”, fazendo-o “por meio de um calor artificial convenientemente temperado. E, quando o pinto quebra a casca, é o homem que lhe serve de mãe, que o guia e sabe reconhecê-lo” (p.216).
Para se obter “móveis, utensílios domésticos e outros objetos que não podem ser encontrados no campo” (p. 216), os agricultores têm de se dirigir aos magistrados urbanos.
As festas também são reguladas, “todos os meses se reúnem para celebrar uma festa” (p. 216).
Não podendo fazê-lo livre e diretamente, os agricultores, para obterem braços auxiliares nas colheitas, “comunicam aos magistrados das cidades quantos braços auxiliares necessitam” (p. 2016).
As cidades são uniformes: “quem conhece uma cidade conhece todas, porque todas são exatamente semelhantes” (p. 2019).
Os utopianos trocam de casa a cada 10 (dez) anos “para abolir a ideia da propriedade individual e absoluta” (p. 221), mesmo sendo imóvel de consumo.
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As eleições dos dirigentes públicos, os magistrados, subordinam-se a rígido esquema, iniciado pela escolha de um magistrado, denominado sifogrante, por grupo de trinta famílias, sendo que 10 (dez) deles “e suas trezentas famílias obedecem (sic) a um protofilarca” (p. 223), devendo os sifograntes, em número de 1.200 (um mil e duzentos), designarem, entre quatro cidadãos propostos pelo povo, o príncipe, dirigente máximo vitalício.
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O trabalho é regulamentado, ninguém, homem ou mulher, podendo deixar de praticar a agricultura, além de que “ensina-se a cada um um ofício especial”, sendo que “todos, homens e mulheres, sem exceção, são obrigados (sic) a aprender um dos ofícios mencionados [...] em geral cada um é adestrado [observe-se o termo] na profissão de seus pais” (p.225).
A jornada de trabalho é regulada, bem como o tempo para refeição e repouso, deitando-se os utopianos às 9 (nove) horas da noite, mas, antes, “depois da ceia, se entregam, durante uma hora aos divertimentos” (p. 227). Uma hora, hein!
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A imposição uniformizadora é tão acentuada na Utopia que nem as vestimentas fogem à regra, sendo que “as roupas têm a mesma forma para todos os habitantes da ilha; esta forma é invariável e apenas distingue o homem da mulher” e até “o solteiro do casado” (p. 225).

Todo o relacionamento familiar é também regulado e “desde que uma moça é núbil, é-lhe dado (sic) um marido e ela vai morar com ele. Os varões, filhos e netos, não deixam as suas famílias” (p. 235), sendo que “cada cidade deve ser constituída de seis mil famílias. Cada família não pode (sic) conter senão de dez a dezesseis mancebos na idade da puberdade [...] Quando uma família cresce além da medida, o excedente (sic) é colocado entre as famílias menos numerosas” (p. 233).

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