Na Utopia, infindáveis, meticulosas, abrangentes são as diretivas, as uniformizações, as imposições, as restrições, exemplificativamente:
- “A cidade inteira se divide em quatro quarteirões iguais” (p. 235).
– “os almoços e os jantares começam pela leitura de um livro de moral” (p. 239).
Não só as atividades e necessidades já descritas são reguladas, medidas e comedidas, previstas, organizadas e impostas.
Para se ir de uma cidade a outra, dentro da própria ilha, necessita-se da boa vontade e consentimento dos sifograntes “se não houver impedimento razoável”, munido, o viajante, de “um certificado de licença que fixa o dia de regresso” (p. 241).
As consequências da infração a essas normas são drásticas, já que “aquele que por sua própria vontade se permite franquear os limites de sua província é tratado como criminoso; apanhado sem a licença do príncipe, é reconduzido como desertor e severamente punido. Em caso de reincidência, perde a liberdade” (p. 241).
Ainda mais: “na Utopia, a ociosidade e a preguiça são impossíveis. Não se veem nem tabernas, nem lugares de prostituição, nem oportunidade para deboches, nem antros ocultos, nem assembleias secretas. Cada um, continuamente, exposto ao olhar de todos, se sente na feliz (sic) contingência de trabalhar e de repousar, conforme as leis e os costumes do país” (p. 242).
“Toda a república utopiana é como uma única e mesma família” (p. 242).
Em antecipação de séculos a Lênin, que disse ser o ouro próprio para fazer vasos sanitários, na Utopia, “o ouro e a prata são destinados aos usos mais vis [....] são feitos com eles até os vasos noturnos” (p. 245).
A impositiva uniformização enquadra o comportamento, a ponto de os utopianos considerarem que a felicidade “está unicamente nos prazeres bons e honestos” (p. 251) e que “a sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis” (p. 253), estando o problema justamente nessas “leis”.
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Conquanto Thomas Morus estivesse influenciado pelo hedonismo do filósofo grego Epicuro, a ponto de os utopianos reduzirem “todas as ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade” (p. 253), na Utopia ambos (pretensos prazer e felicidade) são restritos aos lindes de moralismo direcionador, condicionador, uniformizador, nada restando para a manifestação soberana do indivíduo.
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Toda a pretensa perfeição utopiana esbarra, ainda, na existência da escravidão: “Os escravos são encarregados dos trabalhos de cozinha mais sujos e penosos” (p. 237).
Há mesmo, no livro, capítulo especialmente dedicado à escravidão, intitulado “Dos Escravos” (p. 267 e seguintes), onde se informa, entre outras particularidades, que “todos os escravos são submetidos a um trabalho contínuo, e trazem correntes” (p. 267).
Conquanto isso, a escravidão é exposta no livro como algo natural, normal, elogiável, a ponto de se informar que há outra espécie de escravos, constituída dos trabalhadores pobres das regiões vizinhas “que vêm se oferecer voluntariamente para trabalhar” (p. 267).
Nesse ominoso capítulo e nos seguintes ainda desfilam outras práticas e costumes utopianos, de iguais jaezes aos descritos, em casos de divórcio, guerra, religião, nos quais até impera o ridículo e o extravagante, como “nos dias de trapemerne [último dia do ano], antes de ir ao templo, as mulheres se atiram aos pés de seus maridos, as crianças aos pés de seus pais. Assim prosternadas, confessam seus pecados por atos ou negligências no cumprimento dos deveres, e depois pedem perdão de seus erros” (p. 305).
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Por fim, no que se refere ao fundamento econômico, na sociedade utópica não há propriedade, sendo que “tudo pertence a todos” e “onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral” (p. 308), não se usando dinheiro (p. 311).
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Como o livro é baseado (ficcionalmente) na narrativa de egresso e entusiasta da Utopia, a seu final Thomas Morus comenta que lhe acedeu “à mente quantidade de coisas que me pareceram absurdas nas leis e costumes utopianos”, sobretudo “o alicerce sobre que foi erguida esta estranha república, quero dizer, a comunidade de vida e de bens, sem tráfico de dinheiro” (p. 313).
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De modo geral, a sociedade utópica antecede (e antecipa) pretensões e práticas de planejamento e controle tentadas no século XX, tanto à esquerda quanto à direita do espectro político.
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Pelo pouco que aleatoriamente se relaciona acima, percebe-se a artificialidade da sociedade imaginada por Thomas Morus, eis que, ao contrário da vida real, sua utopia é resultante de elocubração mental individual, desvinculada, alheia e sem compromisso com a realidade humana concreta, múltipla, difícil, complexa, cambiante, sempre em constante movimento e sempre também com novas necessidades, propostas e exigências no bojo de ininterrupto processo evolutivo iniciado com a sociedade primitiva, prosseguido com o escravagismo, o feudalismo e, contemporaneamente, com o capitalismo.