Toda cultura do mundo ocidental tem suas raízes na Grécia clássica de Homero, dos trágicos, dos poetas e dos filósofos.
A importância e a influência da obra de Platão e Aristóteles, por exemplo, são inexcedíveis se se levar em conta tempo e lugar, circunstâncias e condicionantes.
Tais características decorrem, como não poderia deixar de ser, do valor intrínseco dessas obras, de sua formulação e teor.
Nesse sentido, a Ética a Nicômaco, de Aristóteles (384-322 a.C.), conquanto não seja filosófica no sentido estrito e preciso do termo, constitui ensaio sociológico e comportamental montado em vasto, arguto e até certo ponto surpreendente, para a época, conhecimento do ser humano, de suas manifestações e modos de inter-relacionamento compondo as primeiras categorizadas incursões na observação e análise do comportamento humano.
Contudo, como é obra humana, não obstante bafejada pela genialidade em seu mais alto grau, nem tudo que Aristóteles formulou preenche as exigências impostas pela realidade, o único critério verificador e constatador da procedência ou improcedência das ideias e das considerações expendidas sobre quaisquer questões.
Aí incide, de modo impositivo e inafastável, a conjuntura espaço-temporal, mesmo que nos mais altos extratos atingidos pela inteligência humana, como é o caso.
Caso, por sinal, não excedido nem pela obra Shakespeariana, a Renascença e o Iluminismo, também concentrados pináculos da inteligência e da produção intelectual humana, mesmo porque projetados, influenciados e condicionados pelo passado clássico grego, sem o qual possivelmente não teriam ocorrido ou, pelo menos, teriam existido de outra forma e mesmo em outras épocas.
O fato é que as condições econômico-sociais de cada período somadas às percepções das etapas anteriores regulam o pensamento humano, mesmo que fruto de genialidade.
Tais condicionantes não permitem que o alcance do entendimento humano as extrapole, impondo-lhe limites e restrições, que, por sua vez, relativos, são superados pelo desenvolvimento dos fatores que as compõem e conduzem, dado seu perpétuo movimento.
Por isso, Aristóteles, como todo e qualquer pensador, artista e cientista, foi também pautado pelos condicionamentos de seu tempo em diversas questões, a exemplo do regime político administrativo, a escravidão e a posição da mulher na sociedade.
A permanência de substrato econômico-social no decurso do tempo – a instrumentalização do trabalho humano para fins de lucratividade, por exemplo – permite e até admite que algumas dessas concepções atravessem os séculos e ainda persistam, com pessoas e até países inteiros favoráveis à Monarquia e, muitas vezes disfarçadamente, ao Machismo que até muitas mulheres introjetam.
No caso, apenas o Escravagismo é repudiado, exceto por desequilibrados mentais.
A questão, pois, é que Aristóteles, como manifestado no citado Ética a Nicômaco, depõe a favor da Monarquia, da Escravidão e da Subalternidade feminina, desprezando a democracia, depreciando a mulher e considerando o escravo mera “ferramenta viva”, sem atentar para sua condição humana.
Nesse sentido, declara:
“Mas tampouco existe amizade para um cavalo, um boi ou um escravo enquanto escravo, pois não há nada de comum entre as partes: o escravo é uma ferramenta (sic) viva e a ferramenta é um escravo inanimado”, não obstante reconheça, e até proclame logo em seguida, que o escravo “é um homem” (Ética a Nicômaco, cap. VIII, nº 11, in Aristóteles, vol. II, São Paulo/SP, Vítor Civita editor, 1979, em tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross).
Não só, porém. Pelo menos mais duas vezes Aristóteles, na referida obra, se refere (e despreza) o escravo, in verbis:
“Além do que, uma pessoa qualquer – até um escravo – pode fruir os prazeres do corpo não menos que o melhor dos homens, mas ninguém considera o escravo partícipe da felicidade – a não ser [reconhece] que também o considere partícipe da vida humana” (op. cit., cap. X, nº 6, p. 228).
Em outra passagem, além do escravo, inclui a mulher em sua depreciação, ao afirmar, ipsis litteris, que “há uma bondade de mulher e uma bondade de escravo, se bem que o [caráter de mulher] seja inferior e o [de escravo] genericamente insignificante” (Poética, cap. XV, nº 83, p. 254 do vol. citado, sendo do tradutor as intercaladas em colchetes).
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No que respeita ao regime político-administrativo, Aristóteles explicita que “existem três espécies de constituição e igual número de desvios”, indicando-os como Monarquia, Aristocracia e Timocracia, embora a este “a maioria lhe chame governo do povo”, ou seja, democracia, para concluir que “a melhor delas é a monarquia, e a pior é a democracia”, mesmo tendo expendido a respeito desses regimes que “a monarquia degenera em tirania, que é a forma pervertida do governo de um só homem [...] a aristocracia, por seu lado, degenera em oligarquia pela ruindade dos governantes [....] a timocracia, por seu lado, degenera em democracia, já que a própria timocracia tem como ideal o governo da maioria, e os que não têm posse são contados como iguais aos outros. A democracia é a menos má das três espécies de perversão” (Ética a Nicômaco, cap. VIII, nº 10, p. 189).
Nessas afirmações – além de considerar a democracia uma perversão, mesmo a sabendo “governo da maioria”, ou até por isso – ocorre pelo menos grande impropriedade, de há muito tida como tal.
Não existe “governo de um só homem”, conquanto a evidência (ou aparência) assim o indique. Toda ditadura, como todo regime ou forma de governo, decorre e é imposto e sustentado pelos interesses e determinações da classe dominante, como é do conhecimento dos economistas, cientistas políticos e historiadores quando atentos e perspicazes.
Verifica-se, pois, a força dos condicionamentos espaço-temporais, impondo até mesmo a gênios como Aristóteles limitações intelecto-perceptivas que o levaram a falsos posicionamentos.
Se tal elemento impositivo determina a sábios de tal quilate procedimento desse jaez, imagine-se o absoluto domínio que exerce sobre os simples e desavisados mortais!