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Filmes da Guerra do Vietña (II): Apocalypse Now

Guido Bilharinho
Publicado em 18/04/2026 às 17:15
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A natureza, teor e significado da Guerra do Vietnã, antagônicos aos da Segunda Guerra Mundial no que tange à participação estadunidense, determinaram o sentido e a diretriz da série de filmes sobre o tema.

Se no conflito mundial lutava-se pela liberdade, democracia e progresso, no do Vietnã fez-se o contrário, invadindo e intervindo no país que, poucos anos antes (1954), já havia derrotado e expulsado o dominador estrangeiro, a França, humilhantemente batida em Die-Phien-Phu pelas tropas vietnamitas dirigidas pelo general Giap.

Os Estados Unidos chegaram a ter aproximadamente meio milhão de homens no Vietnã e nele lutaram, dado o revezamento de tropas, uns três milhões de ianques, dos quais morreram mais de cinquenta mil.

Um dos filmes mais célebres, ou o mais célebre, a respeito dessa guerra é Apocalypse Now (Idem, EUA, 1979), de Francis Ford Coppola (1939-), realizado quando esse diretor ainda estava em boa forma.

O núcleo da trama é simples, perseguindo fio narrativo que se desdobra em lances e situações cronologicamente sequenciados ao longo da rota fluvial seguida pelo capitão Willard (Martin Sheen), em cumprimento de missão especial.

A questão é o modo como esse périplo inicia-se e desenvolve-se até o desenlace.

         Coppola estrutura a trama não apenas em cima dos acontecimentos, porém, paraleliza-os desde as primeiras cenas e em relação a todas as personagens que intervêm na ação com a construção e apresentação de sua substância humana, cada uma revelando em gestos, atitudes e palavras sua consistência psicológica.

Isso outorga ao filme, por força da concepção original, consciência e segurança com que é dirigido, dupla e simultânea dimensão: a exterioridade do mundo representada pela ação e o íntimo das personagens revelado pela postura e pela densidade de sua intervenção na realidade, compondo-a, integrando-a, perfazendo-se também realidade.

Assim, o que se tem e, frise-se, desde as cenas inaugurais, é a representação, não a expressão, da realidade, como queria Godard, para quem o “objetivo não é de exprimir, mas de representar” (in A Ideia do Cinema, organizado por José Lino Grünnewald. Rio de Janeiro, editora Civilização Brasileira, 1969).

Em consequência, mercê disso, inseparam-se personagem e ação, uma orientando a outra, o que, por sua vez, outorga ao filme conteúdo e substância.

Dessa propriedade decorre que as personagens (os soldados estadunidenses) agem conforme delineamentos gerais em vista do objetivo da guerra e nesse agir infundem-lhe sentido consentâneo com os parâmetros que lhes são impostos.

Se o coronel Kurtz (Marlon Brando) extrapola, transpondo esses limites, o capitão Kilgore (Robert Duvall), ao arrasar paradisíaca aldeia praiana vietnamita (tão bela e organizada como nunca se viu em outro filme dessa guerra), não ofende a moral guerreira de seu país nem transgride os regulamentos militares, mesmo que tenha cometido, por motivo fútil, as piores atrocidades contra crianças, mulheres e velhos.

De igual modo, não os ofende nem os transgride o massacre dos ocupantes de uma barcaça que apenas transportava víveres, mantimentos e um... cachorrinho. Nem, muito menos, a liquidação pelo capitão Willard de sua já metralhada e agonizante passageira.

Todos esses atos e muitos outros mais, por mais absurdos, inúteis ou criminosos que sejam, enquadram-se no contexto criado e mantido pelos Estados Unidos no país para sufocar quaisquer pretensão e ação independente e autônoma da maioria, porque sempre há, em todo lugar e tempo, uma minoria de mente colonizada que se compraz na subserviência e colaboração.

O capitão Kilgore o explicita claramente ao gritar para os vietnamitas que estão sendo massacrados por suas tropas em outra aldeia: “Estamos aqui para estender a mão amiga a todos que quiserem voltar a obedecer ao governo do Vietnã do Sul”. Nesse mesmo diapasão, outra personagem afirma: “achamos um meio de vivermos com a consciência em paz: nós os metralhamos e depois damos Band-Aid”.

O diferencial entre os beligerantes dessa guerra consiste em que, em geral, nos filmes estadunidenses a seu respeito, os vietcongs não espezinham, agridem e massacram os habitantes das aldeias, já os soldados ianques não fazem outra coisa quando aqueles não os mantêm ocupados, revelando a dupla face da civilização estadunidense: externamente, imperialista, agressora, dominadora e, internamente, garantidora, até certo ponto, de liberdade de expressão e de crítica, porém, só para sua elite, e apenas para defesa do status quo, como também era a prática dos romanos.

O rebelado coronel Kurtz representa o símbolo e a consequência dessa guerra: ao horror organizado e metódico que ela criou aduz horror caótico particular, imundo e violento. A assepsia e aparência oficiais e oficiosas não admitiam tal desvelamento e conspurcação. Era necessário preservá-las a todo custo.

A assertiva final de que Kurtz “queria morrer como um soldado em pé e não como um renegado caído em desgraça”, mesmo que plausível no contexto, não passa de facilitação e justificativa para a missão de Willard.

 Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e editor das revistas culturais eletrônicas Primax (Arte e Cultura), Nexos (Estudos Regionais) e Silfo (Autores Uberabenses)

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