Os filmes de guerra podem ferir (com alusão), como, aliás, quaisquer outros, a natureza e sentido dos conflitos ou os transformar em meros espetáculos e, nesse passo, deturpar significado, escamotear verdades e fraudar fatos.
A Guerra do Vietnã, por sua motivação, condução e desfecho, ensejou controvérsia e provocou, ao contrário da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, resistência e oposição no país.
Com o tempo, o cinema estadunidense proporcionou alguns filmes importantes sobre o conflito na fenda aberta na carapaça ideológica do pensamento único imperante no país e refletido, como em tudo mais, também na estrutura da produção cinematográfica.
Um deles (dos mais relevantes) é Platoon (idem, EUA, 1986), de Oliver Stone (1946-).
Alguns atributos ressaltam-se nessa realização exemplar: a infraestrutura que o alicerça (implicando competência diretiva, técnica e interpretativa), o conteúdo e a orientação fílmica.
Não é secundária, no caso, a base tecnológico-cinematográfica sobre a qual se desenvolve a ação, visto inseparáveis, interativas e dependentes uma da outra. A união de ambas, tal como efetuada, concorre para a autenticidade e verossimilhança da narrativa, permitindo, mais que reconstituir, recriar a realidade vivida pelo protagonista, o próprio e/ou o alter ego do cineasta.
Da pertinente contextualização dessa participação direta nos acontecimentos decorre não o questionamento da guerra, mas da ação nela dos indivíduos, o sem-sentido e a inutilidade do esforço e da submissão que obriga os soldados à dinâmica e desencadeamento de mecanismo violento e destrutivo que, desatado, não é possível redirecionar.
Com a mesma força incontrolável do destino e da cólera dos deuses para os gregos, a engrenagem guerreira, de ataque e defesa, domina e conduz o indivíduo (soldado) numa única e indesviável direção.
O vigor cinematográfico da realização corresponde ao poder da máquina guerreira e de sua contrastante oposição armada. Em si mesmas, a desumanidade e ferocidade da ação humana conflitada, independentemente dos excessos ocorrentes (e ocorridos), evidenciam-se desde as cenas iniciais quando o protagonista (voluntário, idealista e ingênuo) começa a tomar contato com a realidade desde o aeroporto, onde as aeronaves despejam jovens fortes e recebem os corpos dos tombados nos combates.
A partir daí, somam-se horror sobre horror. O maior deles: o enfrentamento mortal dos soldados, em que se tenta e se consegue eliminar o adversário, em assassinatos institucionalizados e em série.
A violência e crueza dos embates são a constante do filme, que as revela na totalidade de sua manifestação, não menos terrível nas buscas, nas esperas e nas expectativas dos ataques e confrontos.
Contudo, nessa guerra só isso não bastou nem foi suficiente, como se a loucura que os deuses mitológicos impunham aos seres humanos não encontrasse limite.
A violência cometida contra as populações aldeãs (anciãos, mulheres e crianças) suplanta em insanidade e odiosidade a imperada nos campos da guerra. Face à fragilidade e impossibilidade de defesa, é da mesma natureza covarde e impiedosa da ocorrente nas torturas e assassinatos de acusados e detidos em geral e de presos políticos. Exemplos: O Caso dos Irmãos Naves (Brasil, 1967), de Luís Sérgio Person, e Pra Frente, Brasil (Brasil, 1981), de Roberto Farias.
A gravidade dessa atuação no Vietnã provocou divisão e conflito entre os próprios soldados invasores do país, a ponto de o protagonista afirmar que Barnes, o sargento insano, acreditava no que estava fazendo, “em 1965 sim, agora não” e que “não lutamos contra o inimigo, lutamos contra nós mesmos. O inimigo éramos nós mesmos”, concluindo por indagar o que tinha restado “de nossas vidas para procurar um sentido para a vida?”