Se em Bom-Dia, Vietnã (Good Morning, Vietnam, EUA, 1987), de Barry Levinson, expõem-se os meses iniciais da escalada da invasão estadunidense do pequeno país asiático, com o otimismo e o dinamismo próprios desses momentos expansionistas eufóricos, tem-se o oposto em Histórias do Vietnã (Vietnam War Story - The Last Days, EUA, 1989), subdividido em três episódios: O Último Posto (The Lost Outpost), dirigido por Luís Soto; O Último Soldado (The Last Soldier), por Sandy Smolan, e Trabalho Sujo (Dirty Work), por David Burton Morris.
No primeiro, O Último Posto, são focalizados os dias finais de posto estadunidense avançado.
A preocupação do diretor não é apenas de criar o ambiente que se estabelece diante dessa falta de perspectiva e da derrota iminente, já antevista e percebida pelos combatentes vietnamitas que lutam ao lado das tropas ianques, que só ignoram o momento do desfecho e como seria resolvida sua situação, crendo ser evacuados juntamente com seus aliados de ocasião.
Esse quadro, terrificante por si, é agravado ainda pelo constante assédio de livre atirador vietcongue.
Contudo, tudo isso ainda não constitui o núcleo ficcional diegético. Se o fizesse, não passaria o filme de mais uma das inúmeras narrativas cinematográficas de ação guerreira, que se esgotaria em si mesma, sem adução de nenhum outro significado.
Esse episódio centraliza-se em torno do comportamento de dois soldados, revelando em suas manifestações o grau de deterioração de suas personalidades por força da conjunção simultânea dos fatores de seu caráter, formação e do tensionamento a que foram submetidos no decorrer do conflito.
Se um consome-se no uso de droga com suas conhecidas consequências, o outro, a ela imune, sofre também de espécie de dopagem pela violência e brutalidade em que se encontra mergulhado. Por isso, suas atitudes são agoniadas e dilaceradores os diálogos entre ambos.
Por fim, o que sobra desse contexto é o abandono, pelos Estados Unidos, do posto e de seus ocupantes e aliados vietnamitas.
No segundo episódio O Último Soldado, vê-se a guerra não pela ótica dos estadunidenses, mas, dos vietcongues, num caso de excepcional honestidade intelectual e pluralismo.
Nele são mostrados justamente os guerrilheiros que atacam o posto militar retratado no primeiro episódio.
Não são mais os atiradores desconhecidos, sem rosto e sem imagem, de antes, mas seres humanos com suas emoções, ações e visão da realidade, tanto em seus momentos de ação e heroísmo quanto no ato de saciar a fome, com seu relacionamento humano e militar e suas preocupações mais imediatas.
Nem a chegada de um menino quebra esse ritmo imposto e mantido pela guerra, sendo ele imediatamente incorporado a essa realidade, mesmo que seu velho tio e soldado queira mantê-lo tanto quanto possível afastado. Os fatos e as circunstâncias, porém, são mais fortes e impositivos, levando e misturando todos no vértice mortal da guerra.
A preocupação do velho, seu modo de se relacionar e tratar o menino e demais jovens companheiros revestem-se de aura humanística profunda, gizando uma das grandes personagens do cinema na autenticidade e singeleza de sua conduta.
Se no Último Posto a câmera concentra-se nos deprimentes limites de improvisado forte, imageticamente inóspito, no segundo episódio adentra esplêndida paisagem florestal, em que as árvores e a vegetação substituem os montes de ferragens e sacos de areia do fortim.
Confundem-se e amalgamam-se aí o esmorecimento dos soldados do posto e o ânimo dos vietcongues da floresta com suas respectivas paisagens circundantes, traduzindo os diferentes posicionamentos no agudo transe por que passam.
Já Trabalho Sujo distancia-se do teatro da guerra para vasculhar e expor as entranhas da embaixada dos Estados Unidos no dia de sua evacuação imposta pelas forças vietnamitas vencedoras, onde se observam, manifestadas pelo poder criador do cineasta, a depressão moral (o embaixador), a ação frenética (funcionário da CIA), a perplexidade (a secretária, sua namorada), a desorientação (a outra secretária), a destruição dos arquivos e o desarvoramento total. Enfim, o caos.
No entanto, a grande virtude desse episódio ainda não reside nessas exteriorizações comportamentais, e sim na propriedade e sutileza com que fixa as alterações dos posicionamentos morais do funcionário da CIA e de sua namorada, oscilantes de um extremo a outro sob o peso das circunstâncias. Ora o primeiro nem quer atender ao telefone um vietnamita informante, ora não quer partir no helicóptero que os espera no terraço do prédio. Ora é a namorada que o exproba pela primeira atitude, ora o engana quanto ao segundo fato. Tudo isso marcado e infundido pela pressão e pela angústia.
Em consequência, esse histórico e inusitado episódio (uma das maiores humilhações da História) reflete dramaticamente a agonia das personagens, que corporificam e assumem ali a derrota de seu país, e, simultaneamente, por seu caráter e reações, revelam alguns dos aspectos da desrazão e da debilidade moral que a motivaram.