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Filmes da Guerra do Vietnã (IV): Bom Dia, Vietnã

Guido Bilharinho
Publicado em 02/05/2026 às 16:50
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Em meados da década de 1960, os Estados Unidos, a exemplo de todos os demais países imperialistas que o antecederam, sendo o mais imediato deles a Grã-Bretanha, invadem o Vietnã e o ocupam quase todo.

Por volta de 1965, está com mais de 70.000 (setenta mil) soldados no país, já anunciando sua elevação para 125.000 (cento e vinte e cinco mil), enfrentando desgastante guerra de guerrilhas no interior e atentados terroristas na capital.

A escalada dessa guerra e seu fim, dez anos depois, resultou, como se sabe, na expulsão dessas forças e sua derrota humilhante.

Contudo, a guerra que o disc-jóquei de Bom Dia, Vietnã (Good Morning, Vietnam, EUA, 1987), de Barry Levinson (1942-), trava é bem outra. É uma guerra permanente, deflagrada em toda a parte, em todos os tempos. É a luta contra o convencionalismo, o espartilho mental, a rotina, o atraso, a manutenção do statu quo. Também contra a tristeza e a mesmice.

O fato é que o protagonista, cômico nato, chega ao Vietnã para trabalhar na Rádio Saigon, do Exército estadunidense.

Sua autenticidade, inteligência e informalidade já ao descer do avião conquistam o ordenança que foi esperá-lo. Daí para diante, desde suas primeiras palavras ao microfone, justamente as que intitulam o filme, conquista a tropa.

Não é, porém, o sucesso imediato que confrange dois de seus superiores graduados, mesmo que esse componente, direta ou indiretamente, insinue-se nas atitudes desses superiores. É a novidade, representada pela inovação, a imediata renovação e atualização do repertório musical do programa e a liberdade intelectual do protagonista com seus comentários livres e muitas vezes mordazes.

A oposição que se lhe faz da parte dos citados oficiais não é, no entanto, com muitos antimilitaristas gostariam de ver, específica das forças armadas. À parte a compreensível censura do noticiário em tempo de guerra, principalmente para não levar o desânimo, a dúvida e a controvérsia para a frente de batalha, o que se configura, no caso, é a atuação repressiva (e regressiva) de mentalidade generalizada no seio da sociedade, onde predomina outro combate, permanente e insidioso: a luta econômica, não entre concorrentes, mas de conquista de mercados e consumidores, transformados e tidos e havidos apenas como tais, ou seja, massa de manobra, e não como cidadãos.

Tanto isso é verdade, que, no filme, um dos maiores admiradores (e defensores) do protagonista é justamente o general comandante do setor, espírito atilado, jovial e aberto, que só deixa de sustentá-lo face à grave ocorrência na conjuntura. Sua afirmação de que “há um delicado equilíbrio aqui” − isto é, no teatro da guerra, que é todo o país, principalmente sua população civil, o governo, mesmo que fantoche, a atenção do mundo voltada naquele momento para o conflito − revela desenvolvido grau de inteligência e sensibilidade.

Aliás, toda a atuação desse general é exemplar. Como é a do protagonista, intelectual independente, inserido em conflagrado contexto. Não poderia dar certo, justamente pela extraordinária receptividade da tropa a seu desempenho radiofônico, que investia até contra assuntos tabus à época, mantidos em segredo militar, como a disseminação do uso das drogas entre a tropa, o que o fez declarar num dos programas, com o habitual brilhantismo: “dizem que há um problema de maconha. Não há, todo mundo usa”.

Por essas e outras, é perfeitamente imaginável o choque entre a liberdade de opinião e de informação e sua repressão, sejam quais forem suas razões.

Não poderia dar certo, como, aliás, a própria guerra não deu.

O filme, conquanto destituído de pretensões inovadoras de linguagem, estrutura-se e desenvolve-se na exata medida de fixação e transmissão do acontecimento narrado, extraído da realidade.

Além da dosagem exata e seleção adequada de situações e diálogos, salientam-se pelo menos mais quatro atributos, que o colocam entre as principais realizações que versam sobre essa guerra: as apropriadas cenas transcorridas nas ruas de Saigon; os registros do alcance e repercussão do programa radiofônico do protagonista em cenas reveladoras do aparato bélico ianque; a seleção musical, e, ainda, o dinamismo da narrativa por força de montagem seletiva de cenas e sequências. Enfim, filme tão inteligente e independente quanto seu protagonista.

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