Enganam-se os que pensam que a maioria dos filmes de guerra são semelhantes. As guerras, de maneira geral, sim, não o que se escreve, se diz ou se filma sobre elas.
Excetuados os filmes meramente comerciais, que não merecem consideração, cada enfoque cinematográfico de conflito armado sempre traz, além da natural (e impositiva) seleção de fatos, situações e relacionamentos, ângulo particular de visão (filosófica) e visualização (imagética), que os diferencia, quando não distancia.
Não é simplesmente mostrando fatos ou expondo em diálogos alguma observação para além das evidências que o filme sobre guerra se credencia.
É o caso de Nascido para Matar (Full Metal Jacket, EUA, 1987), de Stanley Kramer (1913-2001), referente à Guerra do Vietnã.
Palmilhando sua tradição contestadora, não obstante limitada, Kramer não deixa nesse filme, de expor algumas das contradições do referido conflito.
Em primeiro lugar, num filme de 117 (cento e dezessete) minutos, dedica 49 (quarenta e nove) ao treinamento, nos Estados Unidos, dos fuzileiros navais. “Nada há mais mortífero do que um fuzileiro e seu fuzil”, afirma o treinador.
Dentro dos marcos (estreitos) nos quais age Kramer, a ambiguidade é característica básica de seu posicionamento. Ao mesmo tempo em que expõe a irracionalidade e criminalidade da preparação militar, com o tratamento dado pelo instrutor aos recrutas, o apelo e incentivo à animalidade humana (“é o instinto assassino que tem que ser atiçado [....] a corporação quer matadores”, afirma mais uma vez o instrutor), subrepticiamente corrobora esse preparo guerreiro e seu conteúdo, apenas ressaltando (e criticando ao expô-los) seus exageros, o que é uma maneira de convalidá-los, inclusive a falta de controle pelos escalões superiores da atividade dos subordinados, permanecendo o instrutor livre, como um semideus, para agir conforme seus instintos.
Esse treinamento, a valorização da violência e da morte, criam e, no mais das vezes, alimentam, incentivam e dão espaço à agressividade ínsita na sociedade (“quis ser o primeiro garoto de meu bairro a matar alguém”, afirma um soldado, por sinal, o mais intelectualizado e, no caso, receptivo a essa cultura da violência). Chega-se ao extremo do instrutor glorificar Charles Whitman (que assassinou doze pessoas num campus universitário) e Lee Osvald (que todos sabem quem é ou deveriam saber) como exímios atiradores por serem ex-fuzileiros treinados pela corporação.
Ora, excessos em qualquer situação (relacionamentos interpessoais, negócios, atividades profissionais, etc.) sempre são condenáveis, inclusive, porque são contraproducentes.
Em consequência, investir apenas contra excrescências e exacerbações implica em sancionar o principal que, no caso, é a utilização da luta armada e seu assassínio oficializado e sistemático para tentar resolver conflitos de interesses. Esse aspecto nem de longe é abordado, muito menos questionado.
Após essa longa (e tediosa) introdução à abordagem do teatro de guerra, Kramer não se sai melhor ao se restringir a montar as costumeiras cenas de bastidores e de frentes de batalha, de resto inevitáveis, já que a guerra é composta disso, é isso.
Nessa fase fílmica, aqui e ali expõem-se algumas observações dos combatentes estadunidenses refletindo as perplexidades que os assaltam (“viemos ajudar [aos vietnamitas] e eles não aceitam, não consigo entender”), ou o horror da guerra, além de colocações que revelam total desconhecimento das causas do conflito e incompreensão de seu sentido e natureza (“preferem [os vietnamitas] estar vivos do que livres”), ou humorismo mórbido (“o morto só sabe uma coisa: é melhor estar vivo”).
A ambivalência de Kramer é evidenciada, tanto por meio da análise de seu posicionamento quanto pela recepção que o filme obtém: agrada e reforça o instinto agressivo da maioria e fornece elementos, conquanto parcos e diluídos, como os acima citados, para atitude crítica de quem, conscientemente, já o é ou pensa sê-lo.
De todo o filme, cumpre apenas destacar, como de efetiva qualidade cinematográfica, o episódio do franco-atirador vietcongue, realmente notável como construção ficcional e exposição imagética em todos os aspectos que concorrem para a feitura de um filme: ritmo, equilíbrio temporal, enquadramento espacial e, principalmente, sentido e conteúdo da ação e da reação humana. Algo que revela o grande cineasta que Kramer foi, mas que, por injunções várias, não teve condições de demonstrá-lo inteiramente, mas, apenas, em passagens isoladas como essa, realmente antológica, como guerra e como cinema.