A Guerra do Vietnã, por sua motivação, característica, desenvolvimento e desfecho, foi traumatizadora para os Estados Unidos. Nem era para ter acontecido se o povo tivesse informações suficientes e conhecimento exato de sua natureza e finalidade e pudesse, efetivamente, influenciar na tomada de decisões.
Tanto essa guerra foi controvertida e discutível, que, à exceção da Segunda Guerra e da Guerra Civil entre o Norte e o Sul do país, nenhum outro conflito tem merecido tão extensa quão peculiar filmografia.
Peculiar porque toda (ou quase toda) ela a questiona e problematiza, ao contrário, por exemplo, dos filmes laudatórios e baluartistas referentes à Segunda Guerra.
A questão é tão séria que até filme baseado nas cartas dos soldados para seus familiares foi realizado. Caso de Querida América - Cartas do Vietnã (Dear America: Letters Home From Vietnam, EUA, 1987), de Bill Couturié (1950-).
No Brasil, além de possíveis outros, tem-se precedente desse fato no livro “Guerra do Paraguai - Indiscrições de Um Soldado (Cartas do Voluntário Miguel Antônio Freixo)”, organizado e editado por João Cunha (Uberaba, 1981).
O filme de Couturie, no entanto, procede o desfilar de trechos de cartas de dezenas de soldados, cada qual expondo pensamentos e julgamentos, além de breves citações de relatos do desenvolvimento do conflito como se apresentava no momento para o missivista e seus companheiros de unidade militar.
À medida que se sucedem essas citações, colocadas à guisa de legenda, realiza o diretor a amostragem do ambiente e dos fatos relatados, que, segundo se informa, não seriam encenados, mas, reais.
A seleção dos trechos das cartas atinge tal relevância que seu conteúdo vocabular chega a ter tanto ou mais importância do que as imagens que o acompanham. Muitas vezes despertam mais interesse e prendem mais a atenção do que sua exposição imagética.
Normalmente, isso não ocorre, já que a imagem constitui objeto, sujeito e finalidade da realização cinematográfica, dispensando quase sempre o excesso verborrágico ou mesmo, em certos casos, a própria verbalização, que não lhe faria falta como em alguns dos melhores filmes do cinema mudo.
Não nesse filme, porém. Estruturado sobre tais relatos, eles comandam o roteiro e suplantam a imagem dado seu alto teor significativo, documental e analítico do que se está vendo.
Entre tantas opiniões, algumas se destacam por comportar julgamento do conflito ou gizar o quadro de seu desenrolar:
“deixando essa guerra inútil” - “a guerra está mal dirigida” - “ele não entendia os motivos dessa guerra que o matou” - “estamos lutando e morrendo por um povo indignado com nossa presença” - “esta guerra é um erro” - “venho buscando o significado real da vida” - “é uma terra oprimida pela morte” - “esta guerra é maçante, exceto nos momentos de terror quando o inimigo ataca” - “o objetivo da guerra é matar gente, não é o meu” - “não que eu não entenda esta guerra, não entendo guerra alguma” - “sinto-me no fundo de um esgoto” - “vivo num estado de torpor, todos estamos assim”.
Algumas dessas declarações, poucas, no entanto, foram colhidas em depoimentos de combatentes prestados à televisão, rádio ou simples gravação. Todas, porém, indicam, antes de tudo, consciência ferida e alto desconforto intelectual e moral.
Tanto elas como esse filme ficarão como documento analítico e não simplesmente descritivo do conflito que opôs a mais formidável máquina bélica até então montada contra um povo de camponeses, porém, determinados e destemidos.
Contudo, talvez a declaração mais importante tenha sido dada por uma mãe, em carta que dirigiu ao filho falecido e colocada, segundo parece, no monumento erguido em homenagem aos soldados mortos nessa guerra e que contém seus nomes:
“FOI MELHOR TER VOCÊ POR 21 ANOS E SOFRER A DOR DA PERDA DO QUE NÃO TER VOCÊ”.
Nesse filme, o diretor consegue apreender o estado de espírito do soldado ianque expresso diretamente nas transcrições, quase sempre representadas também em imagens, numa realização simultânea e simbolicamente documental e ficcional, que vale a pena ver (e ler), além de ouvir, tal a beleza da trilha musical.